O Kikito

1.4.10

Não sei se todos se lembram disso, mas quando éramos pequenas (uns doze anos?) havia uma moda bastante irritante na escola. Cada menina desenhava na sua mão uma coisa que se chamava “kapa igual a”. O objectivo era dizeres o número de letras que tinha o nome do menino de quem gostavas.
É ai que entra a melhor parte da história. A Marina, essa maria-rapaz, de sotaque esquisito, orelhas grandes, aparelho nos dentes e que batia nos rapazes, todas as manhãs chegava à escola e desenhava um grande e elaborado “K = 6”. Então toda a gente começava a dizer “Miguel?”, “Duarte?”, “Afonso?”. Não, não, não. Eu acabava sempre por dar a volta ao assunto e voltar para casa orgulhosa do meu segredo.
Chegou então o grande dia da revelação. Preparem-se.
Tcham tcham tcham tcham.
K=6. Kikito.
Kikito, para quem não sabe, é a alcunha do meu querido, adorado, amado e devoto Ricky Martin. Sim, eu era fâ do Ricky Martin. Mas eu não era só uma fã normal e corrente, estilo, “é giro e canta bem”. Eu achava, e bem no fundo do meu coração acreditava, que eu e o Kikito formaríamos uma vida juntos. Durante muitos anos acordei no dia 24 de Dezembro e o meu primeiro pensamento foi “Parabéns Kikito”. (O quê? Vocês não sabiam a data de aniversario do Ricky?). Durante muitos anos suspirei sempre que entrava no quarto e olhava para a minha parede (literalmente forrada com posters do Kikito). Houve até um dia que um poster dele caiu em cima da minha cabeça enquanto eu dormia e eu fui para a escola dizer que “era um sinal”.
Depois fui crescendo e as pessoas ficavam indignadas: “Como assim eras fã do Ricky Martin? É tão gay e canta tão mal.” Mas o que ninguém percebia é que o que eu senti por ele era muito mais profundo e ia muito mais além de um simples rebolar de cintura. Até que chegou o dia do anúncio da “gravidez”. Confesso que pensei, “Ricky? Porquê contratar uma barriga de aluguer? Se tinhas aqui o meu útero, todinho à tua disposição?”. Mas não me zanguei com ele, a serio que não, “outros filhos virão”, disse-lhe por telepatia.
Foi então com assombro e surpresa que esta semana entrei nos mails e tinha quatro mensagens com o assunto “Ricky Martin é gay”. Havia pêsames, mensagens de força e outras de troça. A todos respondo sempre o mesmo:
Caros amigos, não se preocupem, ele está apenas confuso. Chegará o dia em que nos conheçamos e ele diga a frase pela qual esperei toda a minha vida: “Onde andaste todos estes anos Marina?" Teremos filhos e viveremos felizes para sempre.

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