3.2.16

Saudades, Lisboa


Estes dias de inverno com sol, esse jeito bruto de ser. 
Um afeto pouco palpável. Um humor de mal humor. Goza, humilha, critica e reclama. E vem dai uma chapada. Carinhosa, claro. Hahaha. Que cómico.
Saudades. Ao ver os bancos de namorados ao sol. Foram tantos jardins, tantos bancos de jardim. Tantas horas no sol de inverno a alimentar um qualquer amor adolescente. Não, não foi para sempre. Mas valeu a pena.
Sorrio ao ver o semafro da avenida de Berna. A faculdade em forma de livro. A pastelaria dos queques gigantes. Não me lembrava que a estação tinha cheiro. Mas tem. 
Saudades da tosta mista, do carioca de limão, da torrada e do silencio da cidade. Paradoxo.
Estas ruas que na verdade nunca foram minhas. Que pena. Sempre quis ter uma cidade como esta.
Uso mapas como se fosse turista e sinto falta daquilo que não tive. Um filme no São Luis, um copo no Cais do Sodré, um amigo que liga "pra saber se ta tudo bem". Digo palavras que não existem. 
Só eu percebo a importancia de comer castanhas em fevereiro. Só eu me emociono com um "queres erva?" dito no meio do Rossio. Só eu suspiro com o som reconfortante do comboio depois de um dia cansativo. É terapia barata: 2,05.
Volto a Lisboa e sou adoledcente. Não tenho 30 anos nem uma vida independente. Sou eu, de cabelo vermelho, roxo, loiro (tanto faz), a falar alto, a gritar, a jogar ao lobo, a passear com cachecois que se arrastam no chão, a almoçar de domingo em frente ao mar. 
Sou eu. Ou se calhar não.

27.1.16

Ganhaste a loteria?

Para todos aqueles que não conseguem resistir ao comentario, aqui vai (de uma vez por todas) a minha resposta.
Sim, vou viajar de novo. E não, não ganhei a loteria. Vou viajar com o dinheiro que poupei não comprando roupas de marca nem carros topo de gama. Vou viajar por todas aquelas vezes que não fui às rebajas, por todos os presentes que fiz e não comprei, por todos aqueles jantares caseiros, pelas botas que duram vários anos e os bikinis também. Pelas vezes que repeti vestido em casamentos e batizados (hereje!). Viajo com o dinheiro de anos trabalhando das 12h às 12h. Andando de bicicleta e não de carro. Com o dinheiro do carro de vendi viajo para longe, bem longe, e gasto o mesmo que tu naquelas ferias em Ibiza. Quando viajo divido quarto, experiencia, banco do autocarro e até almoço. Visito amigos e poupo em alojamento, comida e sorrisos falsos.
Sim, vou viajar outra vez e os voos foram bem baratos (obrigada pela preocupação). Não, nunca traigo "presentinhos" quando viajo. Desculpa. Mas sim traigo (muitas) fotos e acho que é suficiente.
Não sou rica, mas se fosse, ¿o que é que tens a ver com isso?. Não sou rica, e se fosse, talvez não viajasse tanto. Ou não conhecesse tantas pessoas. Ou não tivesse tantas historias.
Sobre a loteria, não, não jogo. Poupo esse dinheiro para a minha próxima viagem.

26.1.16

Capitulo I - Os desconhecidos

Eu, na verdade, nunca gostei muito deles. "Odeio pessoas", costumava dizer. Não gosto dos dramas, das fofocas, do disse que disse o primo do fulano. Em geral, nem sequer gosto do fulano.
Quando comprei aquele bilhete de avião buscava mais a introspecção que as gargalhadas. Ganhei os dois e nem sabia.
Fui porque sim, fui porque fui. Sem mais. Não sei bem o que buscava, porque buscava um pouco de tudo. Desintoxicar. Poder escolher. Se não gosto de ti, oh desconhecido, digo-te adeus, bye bye, I'll see you around. Se gosto, conquisto-te com uma cerveja de 20 cêntimos.
Acho que buscava a simplicidade. O branco e negro dos amigos que não duram mais de uma semana.
Tu sim, tu não. Nós sim, nós não. Gosto disso.
Esta é uma ode aos desconhecidos e às conversas de autocarro. "Eu conheço aquele desconhecido", disse um dia. "Sim, esse que vai com as calças rotas e sem camiseta". Dei-lhe um abraço. Desses que só dão os amigos.

21.1.16

Das rotinas

Quando vivia com os meus pais não tomava café da manhã, almoçava pouco e jantava muito. Víamos televisão na cozinha. Quando era adolescente ligava todas as noites para o meu namorado de turno. Os namorados mudavam, o hábito não. "Mas vocês acabaram de se ver, o que têm ainda para conversar?", me perguntavam. Eu ignorava o comentario e digitava cada noite os mesmos números.
Na Italia, por exemplo, não faltava a nenhuma aula. Saia da discoteca, tomava banho e ia para a faculdade. Dormia nos intervalos, mas não perdi nenhum dia.
Quando morava com a Nonna saia de casa às 7.15, pegava dois ônibus e um metrô. Voltava tarde e cansada mas o meu prato sempre estava no microondas.
Um dia, quando já morava na Espanha, tive saudades do Nonno. Foi então que me lembrei de como ele molhava as bolachas María no café. Eu não gosto de café e adaptei a técnica ao copo de leite. Não é que funcionou? Não tem nada mais reconfortante.
A minha avó, a vovó Leda, me deu um dia um colar. Adorei e coloquei na hora. Não tirei mais. Passaram anos e um dia o colar quebrou. Tive uma crise de ansiedade e liguei para ela: "Vó, está tudo bem? É que o colar quebrou... achei que podía ser um sinal..."
Em Madrid jantava 7 dias por semana quatro torradas com tomate e orégano. Uma baguete de pão durava 2 dois dias e a caixinha de tomate do Mercadona aguentava a semana inteira. Às vezes trazia restos do almoço para casa e jantava duas vezes.
No meu primeiro ano da Coruña só ouvia Bob Dylan. Em Turin chorava ao som de Ana Carolina.
Quando há eleições passo o dia escutando canções revolucionarias.
Durante um tempo corri. Depois nadei. Fui na academia. Fiz spinning. Andei de bicicleta. Fiz exercício em casa. Nunca atingi os meus objetivos. Nunca persisti muito tempo.
Agora acordo todos os dias uma hora antes do resto do mundo só para tomar um chá preto. A partir desse momento, não tenho horarios. Liberdade. "Quero aproveitar o meu tempo livre, quero aproveitar o meu tempo livre", é o mantra que toca en repeat na minha cabeça. E com tanto mantra e tanto tempo, me perdi.
Sem rotina o tempo foge.

20.1.16

A nonna

Ela diz "danguetis" e "service service". "Dais" em vez de "dez" e outro dia pedí um pastel de queijo e ela me trouxe um escrito "cheggio". Essa é a Nonna.
- Agora vou ver o meu programa - ela diz enquanto se deita no seu cadeirão e escuta qualquer entretenimento em italiano. Na verdade, "o meu programa" pode ser um que passe na RAI, mas também serve se ele for apresentado pelo Silvio Santos. 
Novelas, só do SBT. Vinho, com água e, se puder ser, com fruta. Tomate, sem semente. Praia, "só se for para tomar uma agua de coco". Ela não gosta do sol nem do mar. Um trauma depois de um mês num navio. "Uns 20 dias" foi quanto durou o trajeto Italia-Brasil. Uma viagem só de ida em busca de um futuro - e um marido. Ela tinha rejeitado o pretendente americano "porque tinha voz fina" e gostou do Nonno: voz grossa, alto, bonito, mas com um problema: era mais novo que ela. "Não faz mal, eu nunca pareci a idade que tenho", justifica. Nem naquela época, nem agora. 
Tiveram 4 filhos e trabalharam duro. Ele, fazendo sapatos, ela, costurando. Agora "a loja" mudou de geração, mas é ali onde a Nonna passa os seus dias. "Me distrai", explica. Ela gosta de rotinas. Café da manhã às 7.30, no meio da manhã, um chá e o almoço é sempre às 13.30. Segunda feira tem feijão, quinta é dia de macarrão e no sábado não tem comida porque todos pedem pastel. 
- Compra no meu amigo - ela diz, quando sou eu que vou na feira. 
- Mas no teu amigo o pastel não é tão gostoso - respondo. 
- Ah, mas quando eu vou ele me chama "D. Angela, D. Angela" e então eu compro sempre lá. 

Ela é popular. No bairro e na familia. 

18.1.16

Algo que te faça feliz

"Haz lo que sea pero que te haga feliz", me dizem. E eu paro.
Porque há poucos dias, por exemplo, descobri que o surf me faz feliz.
O surf? Quem diria!
Juntei-o então à escrita, às viagens, à cozinha, aos meus cremes naturais e à leitura.
Faz-me feliz tomar chá quando o frio é solarengo, fazer risotto de abóbora com a minha mãe, adormecer no sofá no domingo à tarde. Sou feliz quando vou ao cinema, quando como gomas e quando rego as minhas plantas. Sou feliz comendo pastel da feira com a Nonna, quando ouço a rádio de manhã, quando leio uma reportagem bem escrita quando jogo "buraco" com a Vovó Leda ou quando durmo de conchinha.
Mas há coisas felizes que dão dinheiro?, pergunto.
Porque o meu professor de surf queixa-se do hombro e dos alumos que não se esforçam - tento ignorar a referência. As cafeterias agora vendem tapas de fritura. As lojas de gomas dão caries nos dentes. Os jornalistas já não têm tempo para escrever bem e os feirantes queixam-se da sua vida de  saltimbancos. A minha mãe vive longe da Nonna. A casa da Nonna está a mais de uma hora da Vovó Leda e as três estão a muitos, muitos, muitos kilómetros da minha casa. A minha casa faz-me feliz porque não é trabalho (ou não será assim?) e eu meu trabalho não me faz feliz porque se chama trabalho (ou será que não?).
Sempre que alguém diz que é feliz no seu trabalho, eu penso: "mentes". Não és feliz quando o teu chefe te grita, nem quando não recebes o suficiente. Não és feliz quando tens de trabalhar no sábado e no domingo à tarde, quando o despertador toca às 7 da manhã. Mentes. Ou mentes ou eu estou amargada. Ou mentes ou eu preciso encontrar o que me faz feliz.
Desesperadamente.


10.12.15

Too much

O que tem eu não gosto, o que eu gosto não tem. O que eu quero é simples demais e o que o mundo quer precisa de mais simplicidade. Passo os dias com cara de enjoo. "Esse é lindo", me dizem, e eu respondo "é horrível". Sou um antónimo personificado. Preciso de mais brilho, mais decote, mais longo, mais justo. E eu quero menos. Sempre menos.
"Sou chata", justifico. E provo outra renda, outra lantejoula. "É feio", digo, para abafar todos os suspiros. Porque aqui é assim. Perguntam o teu nome mas na verdade só te chamam de "querida", às vezes, de "amor".
- Prova esse, amor, 'tá saindo muito.
- Não gosto, não.
- Nossa... mas é tão bonito.
- Não acho bonito, acho feio. Muito feio.
- Que nada... Está na moda.
Eu já nem respondo. Fecho a cortina. Obrigada e adeus.
"Quer um saltinho, querida?". Não. Não gosto de salto. Não vou de salto. Caras de choque, de desilusão. Porque você sabe, né? Madrinha sem longo não é madrinha. Longo sem salto não é longo. Sapato sem salto não é sapato. E então, eu não sou ninguém. Conclusão lógica.
No fundo tudo é uma questão de opinião. E a minha, claro, é a que está certa. "Sou simples", explico ao entrar na loja. E me encho de orgulho.
Simples é o que eu sempre quis ser.

22.11.15

Lembra-te

Convivo à demasiado tempo com a minha memória de peixe.
Talvez por isso escrevo.
Para não esquecer aquele dia em que cheguei a uma aldeia hostil. Viciados em opio, lixo, ruas de barro e um hotel sem internet. Desconectada do mundo, sem vistas bonitas nem companhia para passar o tempo.
Fui passear. Objectivo: almoço. O primeiro restaurante era sujo e escuro, o segundo, também. Mas foi então que lá ao fundo, na sombra, entre o arroz frito e a Beerlao vi o que parecían ser dois olhos redondos. Duas peles brancas. Duas línguas com letras conhecidas. Westerns?
Aproximei-me com cara de esperança. "Olá", disse no meu melhor inglês, "a comida aquí é boa?", perguntei sem me importar com a resposta. Eles já tinha esvaziado o prato.
O próximo passo era o ataque. "Posso sentar-me com vocês?", propus. "Sim, mas acabamos agora mesmo de comer", disseram. E eu retruquei, enquanto puxava uma cadeira: "Não há problema, eu como rápido".
Passámos a tarde juntos. Até trocámos números de telefone.
Viajar sozinha é isto. Fazer amigos à força. Não ter vergonha. Falar, partilhar e ser, porque não, um pouco egoísta.
Egoísta como naquele dia em que recusei viajar com uma rapariga só porque ela mencionou ter poupado 50.000 euros para esta viagem de 6 meses. Fiz-lhe um adeus com a mão e com um sorriso disse-lhe "see you around". Ela ficou com cara de pendurada. E eu segui o meu caminho com os meus 20 euros diarios.
Viajar sozinha é escolher. Como isso que se dizem dos trabalhadores por conta própria: "fazem o seu horario". Quando troto o mundo sem partner acordo às 6 da manhã e vou para a cama às 9.30. "Fica mais um bocado", pedem. E eu respondo "não". Um não, pela primeira vez, sem remorsos, sem dúvidas, sem "e se...". Não porque não me apetece, porque a viagem é minha e eu faço o que eu quiser.
Um não tão (prazerosamente) egoista.

19.11.15

Voltar

Voltar é dormir de conchinha, é ter chave de casa e um edredon da Minnie no sofá. Voltar é ser recebida com flores, sol, balões e beijos. Não queria voltar mas voltei e bem que gostei.
Gostei de ter um armario cheio, duas escovas de dente e uma parafernália de cremes para o cabelo. Gostei de voltar ao supermercado e comprar comida de verdade.
Porque voltar para casa é cozinhar, ler as noticias, ouvir vozes familiares na radio. Queixar-se do tempo. E ter tempo. Em casa os segundos passam a outra velocidade. Não há um horario para o breakfast, não há pressa para reservar o autocarro, não há chaves na porta do hostel, nem o happy hour das 7 às 9. Aqui a cerveja é quando eu quiser. 
Estar em casa significa ter uma bicicleta. Aulas de italiano e um quarto que faz de ginásio. É sinónimo de ter amigos que duram mais de uma semana. As caras repetem-se uma e outra vez.
A casa cheira a nós e não sentimos cheiro. A cama está amoldada ao nosso corpo. A rotina integra-se com rapidez. As manias retornam e os pensamentos também. 
Voltar a casa é achar inaceitável dormir com baratas, tomar banho de agua fria, ir à praia sem depilação. Quem faz essas coisas? Hoje paguei 20 euros num almoço. Há uma semana paguei 1 e achei caro.
Naquele mundo acordava às seis de manha, neste, faço um esforço para não adormecer antes da uma. 
Voltar é bom o problema é esquecer que fui. 

15.11.15

Eles

A Silvia e o Mauro. O Mike e a Mary. A Liz e o Rô. A Brailey contando do seu trauma da Tansmania. A Rose comendo arroz branco e Coca Cola. A Daisy e o Richard. Ele, com medo de moscas, ela, que depois de conhecer a Mongolia deixou a depilação. A Cris, que abandonou a crise espanhola e pôs a mochila às costas e a Ottavia que reclamava, protestava e criticava mas, no fundo, tinha um coração mole. A Luisa e a sua risada tímida e comentários ingénuos. 


A Vivu, que foi entrevistada mas também amiga. O Henry, a Asha e o Volker que me fizeram sentir em casa, rir até ter lagrimas nos olhos, beber demasiada cerveja, participar em dramas amorosos e considera-los "amigos de verdade". A Rachelle, o Scot, o Harrison, a Amelie, o Tobin e o Marcos que conseguiram que eu acreditasse que outro tipo de familia é possível. 


A Paloma e o Sergio. Outras vítimas da crise com quem partilhei viagem, cervejas e confidencias com selo espanhol. As galesas de quem não decorei o nome. Os alemães do autocarro que não falavam ingles. A Caroline, medica, e com medo da street food; as argentinas peronistas e os Oscar. Foi tão bom reencontra-lo. O Daniel e os seus whatsapps de engate. O Andres, tão inseguro mas que se despia em público com naturalidade. O Chris e a Lee. "Vaya 3", diríamos em España. Un americano com ataques de ansiedade, uma teenager "demasiado madura para a sua idade" e eu. Bombastico.



Depois chegou o grupo do centro. A Detta e o Iupe: o casal zen. Deles invejei a independencia e a calma. Fiz uma nota mental para tentar imita-los. O Jelte e a Lea que entraram rapidamente para lista de favoritos. Com ele viajei de moto, saltei em cascadas selvagens, comi demasiada "passion fruit" e rompi um dos 5 preceitos. "Fazemos só quatro e meio que uma cerveja não faz mal a ninguém", dissemos.



Depois vieron o Luke e a Nina. Ele tão francês, tão olhos azuis, tão coração partido. Ela, que virou amiga e companheira de motorbike, de templos vazios, vistas de perder o fôlego, regateios e todos os night markets que existiam à face da terra. 
E chegou a Birmania e com ela a Sarah e a chuva de Bagan. Descobri o Pedro e recordei como Portugal sempre será "casa".  Deixei-lhe a Emma e o japonês. Ela, londrina do mundo das finanças farta de computadores. Ele... se conseguíssemos entendê-lo poderia contar-vos algo.
Foi então que apareceu o Pablo. "Contigo a conversa nunca acaba", disse-lhe. "Olha que tu", respondeu ele. 


E então falámos horas a fio, conhecemos templos, trabalhamos muito, stressamo-nos, gargalhamos no meio das ruas caóticas de Yangon e comemos rothi. Ele de Longyi e eu de thanaka. 
E para acabar, nada melhor que uma familia: a Lea, o Tim, a Kiki e o Raf. Tão modernos, tão acolhedores, extrovertidos, tão generosos. Tão perfeitos.
Sem ele, sem todos eles, estes dois meses não teriam tido graça nenhuma.