30.


Se me dissessem que aos 30 anos já teria vivido em 4 países diferentes, falaria varias línguas, faria esporte (quase) todos os dias, preferia a montanha à praia e a natureza à cidade, não teria acreditado.
Se me dissessem que aos 30 não teria um bom salário nem estaria casada com filhos, ficaria chocada.
Aquela menina de aparelho nos dentes e cabelo encaracolado não aceitaria uma mulher de 30 anos com tenis no pé, mochila nas costas e demasiado dinheiro investido em viagens.
Com trinta já visitei 44 países (sim, eu contei), trabalhei em 6 empresas diferentes, passei um mês vivendo numa bicicleta com uma tenda de campismo, outros dois sozinha com a minha mochila conhecendo a Ásia. Estive uma semana em silencio meditando nas montanhas tailandesas. Fiz um documentário e o cinema encheu no dia da estreia. Dei entrevistas e fiz muitas outras mais. Porque se me dissessem que aos 30 anos me pagariam para (que eu tentasse) mudar o mundo, teria dado gargalhadas de incredulidade.
Aos 30 anos faço o meu propio pão, o meu creme hidratante e o meu sabonete. Gosto de cozinhar. Continuo sendo viciada em balas, gomas e gominalas. Uso a internet dos vizinhos, tenho uma empregada duas vezes por mês e nunca passo a roupa a ferro. Agora, aos 30, tenho menos amigos que quando tinha 20. Menos roupa também. Com 30 ainda uso o mesmo cobertor que me compraram quando tinha 5 anos. E tem nome: é a Minnie.
Sou mais flexível, mais tolerante, menos religiosa e (bastante) mais calma. Não tenho cão nem gato. Por não ter, não tenho nem carro. Gosto de andar de bicicleta, de nadar e de correr. Ainda tenho aquelas mesmas dores no joelho, mas já aprendi a conviver com elas. As minhas orelhas ainda são (bastante) grandes mas acho que elas combinam bem com o meu cabelo meio-liso-meio-encaracolado. Ainda guardo cada ano na carteira a nota de 5 reais que a Nonna me dá no Ano Novo. Ainda tenho a Nonna e a Vovó. Ainda bem.
Com trinta tenho um companheiro de vida. Dizem que somos parecidos. Eu acho que ele é muito melhor que eu e que eu sou uma sortuda.
Talvez há anos atrás pensasse que com 30 faria uma festa de arromba. Com amigos, música e gin tonic até de madrugada. Mas não. Preparei a nova década nas montanhas do Perú e para o meu almoço de aniversario fiz lasanha e salpicão. Éramos 20 e a festa foi na casa da Nonna.
Família. Não podia ter começado em melhor companhia os meus 30.



Negro.

É preferível pensar que tudo vai correr mal e assim se acabar bem, ficamos felizes. Se não, nada muda. A previsível tristeza permanece e o mundo continua, invariavelmente, a ser um lugar inóspito. É claro que vai sair mal. Por que é que o universo se alinharia para ajudar-me? Eu, uma formiga insignificante no meio de tantos átomos em expansão. O big bang separou-nos e desde então procuramos o por quê. Nunca vamos encontrar. Tonterias. Se nem sequer conseguimos aterrizar em marte. Foi por milésimos de segundo, dizem.
Mas o que é que não é por questão de segundos? Foi también um espaço de micro-tempo que me fez dar aquela resposta errada. Dizer sim durante a reunião. Não atender aquele telefonema, enviar o email. Send. Já está.
É claro que tudo vai correr mal. As coisas não vão lá com pensamento positivo e blablabla. Mentiras.
Sejamos todos pessimistas. Já estou farta do mundo bonito da internet. Não quero luz, nem flores, nem  "feeling blessed". Atiro tudo pela janela. Hoje quero pensar que o futuro será negro. Ou quem sabe... não.

Em modo bunker

Durante um tempo acreditava que vida era o que acontecia entre acto e entreacto. E nesse espaço que ora junta ora separa, construíamos o que queríamos ser.
Era o que eu pensava.
Agora não.
Do alto da sabedoria dos meus (quase) 30 anos sinto-me circular. E ás vezes acho que o mundo conspira, que o corpo fala, que os ventos dizem. Sou de ciclos e vejo-os chegar com antecedência. Outrora teriam dito que sou bruxa.
Tudo começa com uma borbulha na testa, uma barriga hinchada, uma noite mal dormida. "Foi o jantar de ontem", justifico. Tento enganar(me). E então vem aquele mal corpo. "Vamos tomar uma caña?", perguntam, e eu desculpo-me. Vejo uma gargalhada vizinha com admiração, "sou só eu que estou a sentir?". Não faço planos. Reservo hotéis com tarifas flexíveis e deixo o cartão de crédito na carteira. Fico em modo bunker. Em contingencia. Porque quando o ciclo acaba temos de nos desfazer de tudo. Despir-nos. Comprar novos óculos. Novas roupas. Um novo sorriso.
Nada será como antes e nunca saberemos como teria sido. Mas é das incertezas que nasce o progreso.

Perspectiva

Ás vezes é mesmo disso que precisamos. De tempo. Pôr a vida em automático e deixar os dias correrem à sua própria velocidade. Não insistir. Não forçar. Esperar.
A épica não vem de contar e recontar histórias. A palavras são, tantas vezes, pobres portadoras de sentimentos. Porque com o verbo vem a hipérbole, o eufemismo, a metáfora. O falar bonito. 
Isso não que rima com coração. Ler, escrever, ver. Gosto demasiado do verbo viver. Censura à segunda conjugação. Assim nunca vai acontecer. 
Tentas contar as histórias e sempre ficas pela metade. Porque as palavras são curtas e o tempo também. Toca o telefone. Vem o café. A criança cai. Quer outro gelado? O puto chora. Pode me dar uma moedinha? Já é tarde, tenho de ir.
As batalhas a meias contam como perdidas. As mal contadas, como derrotas. E as eternas, como aborrecimentos impagáveis. Lose-lose situation. 
E é então que vejo aquela foto. Uma familia que não sei quem é, num país que realmente nunca conheci. Não conta nada daquele hotel com baratas, do banho de agua fria, da amiga que não gostava, da noite passada a ouvir conversas de outros. Da solidão, do silencio. Do "where do you come from" de cada noite. É só uma gente desconhecida numa paisagem exótica e, no entanto, faz sentir tão profundo. Deve ser da perspectiva. 

Ode aos desinformados

Quero um mundo sem política. Sem governo. Sem taxa de desemprego. Quero acreditar que posso. Que o futuro será brilhante.
Quero ser anti sistema. Viver sem certidão de nascimento. O Estado nos espia e nos controla. Não aceito subsídios nem participo de concursos. Mas voto. Não sempre aos mesmos. Sou da bolsa dos indecisos. Aqueles que ouvem os debates e decidem sem convicção. Não há pão para tanto chouriço nem esperança para tantos desocupados.
Não há vida sem indignação mas as manifestações são só um pouco de cor para o telejornal. Malditos jornalistas.
O mundo são as coisas que giram enquanto o Congresso discute. Enquanto o PSOE se desmorona. Enquanto uns jovens desencantados tentam resumir a realidade em meia hora de pirâmide invertida. São aqueles amigos que chegam para jantar e ainda não tinham visto as noticias. Nem lido o jornal. Nem ligado a radio. Nem recebido 10 alertas no telemóvel. Nem tentado dizer algo inteligente naquele grupo de whatsapp.
Que sorte. Felizes os desinformados.

Não voltei

Não voltei porque nunca fui e mesmo assim sinto saudades.
Que vida.
Entre nostalgia e nostalgia passamos o dia a suspirar por tempos melhores. Dias antigos em que sonhávamos com memórias mais velhas ainda. Complexidades humanas.
Coisas da idade.
Nao voltei mas noto que as minhas frases são cada vez mais curtas. Consequências do directo.
Escrevo e reparo que sou do tempo em que directo ainda se escrevia com cê. É verdade que o cê já morreu? Que tempos aqueles.
Um tempo em que escrevia todos os dias, qual terapia 2.0. Sim, eu sou da época do 2.0.
O papel nunca foi o meu forte. Sempre fui mais do som das teclas. Letra, letra, delete, delete. Disquetes e disquetes de texto inventado. Queria ser escritora e agora as minhas linhas são sobre política. Que chatice.
Ainda bem que não voltei. Porque já não sou a de antes.

Perdida

Decido esperar. Esperar porque "só o tempo dirá", "o futuro traerá coisas boas", "não podemos controlar o mundo" ou "a felicidade bate à porta". Não bate, asseguro-vos que não bate.
Esperar que o trabalho melhore, que ganhemos mais dinheiro, que tenhamos mais responsabilidade. Esperar aquela vida de filme. Ou até a daquele amigo que se saiu bem. Tu não. E por isso esperas.
Aguardas que venha um bom vento, que tropeces com o futuro, que tudo mude de repente.
Não muda.
Então sentes-me perdida e, sem rumo, não podes tomar decisões vitais. E não as tomas, esperas.
Tic-tac. O tempo passa e o futuro não chega. Nem aquela boa casa, bom trabalho, os amigos que são familia. Não chegam. Desiludem-te. Um depois do outro. E enquanto isso tu esperas.
Buscas mapas e placas convertidas em formato de blog. Não serve. Enganas-te. Preenches o tempo como melhor sabes. Vegetas, ocupas, projetas dia a dia.
Até que hà um momento que alguém diz: "Esquece, não adianta esperar". E tu perdida te confessas e aceitas. Paras de deixar passar.

(quase)

Diz o Paul Mason que no futuro viveremos (quase) sem dinheiro e eu (quase) acredito.
Porque talvez não sejamos a geração perdida. Talvez não tenhamos uma vida pior que a dos nossos pais. Talvez tudo seja uma questão de perspectiva.
Jantar fora está "out" porque o que está "in" é cozinhar. Já não compramos sabão nem creme hidratante. Fazemos em casa. Na aldeia cultivamos kiwis e pimento picante. Vem dai um tomate da horta e cebolas caseiras. Os pais do meu amigo têm galinhas, os meus têm ameixas. Trocamos.
Vendemos aquela televisão que havia lá em casa e que só ocupaba espaço. Ganhamos quase cem euros e respiramos de alívio. Vens visitar a minha cidade? Alugo-te um quarto e faço-te o pequeno almoço.
As aulas de inglês, faço na escola pública e os livros e os filmes estão todos online. Nada de comprar pipocas de microondas, as de milho de verdade é que são boas.
Também é melhor o pão caseiro e o doce para o café da manhã. Almoçar numa esplanada em frente ao mar? É mais divertido un piquenique debaixo da árvore.
Se o meu vizinho tem internet, un "alargador de sinal" faz-nos a todos mais feliz. ¿Comprar fora dos saldos?, isso é gastar por gastar.
Talvez o que o Paul Mason queria dizer é que somos a geração dos forretas. Dos que compram as ferias com un ano de antecedência e vão por ai gabando-se do bom negocio. Se calhar o "gratis" é mesmo a nova forma de vida.
Ou (quase) a única vida possível.

O que mudou?

Não sei se fui eu ou foste tu. Se foi o mundo. Se foi um país sem presidente, o outro em processo de impeachment e o terceiro a governar em minoría. Quiçá nada mudou.
Mudou o ritmo das tardes de domingo. Os hobbies. As noites demasiado cansadas a dormitar no sofá. Porque o sofá, definitivamente, não mudou.
Quiçá deveria. Deveríamos ter mudado o sofá e a factura do banco. Ter expulsado a preguiça e melhorado a nossa organização. Deveríamos comer melhor. Mas isso não mudou.
Não mudámos com a distância nem a convivencia. Com os whatsapps descompasados. Con o jetlag e as ligações frustradas. A saudade não nos mudou. Deveria?
Mudou, talvez, o sorriso. A postura. O olhar. Mudou, quem sabe, o futuro. Mas isso só o futuro sabe.
Mudou a tranquilidade, o silêncio, o chá de menta fresca. Isso, definitivamente, mudou.
Aquela gargalhada entre paredes cinzentas e o respirar fundo. Mudou a profundidade da minha respiração. Isso sim.
Tudo mudou para não sair do lugar. Ou esse lugar nunca foi seu. Ninguém saberá o que teria sido se nada tivesse mudado.
Essa é a verdade.

Isto é uma declaração de amor.

Sete meses. Um pouco mais. Exatamente sete meses e sete dias. Curioso.
10 países e três capítulos. Sempre com um verbo em conjugação automática: recomeçar.
Foram 220 dias de solidão acompanhada, de uma "viagem interior" diriam os mais "cursis".
- Mas foste sozinha? - É uma das perguntas mais frequentes. Deveria responder que sim. Sem amigos ou namorado. Sem agenda nem compromissos.
Mas não.
Ela foi a minha companheira incansável. Quem soube encher com um clic o silêncio dos días mais duros. Fez terapia a través da sua lente. Com ela passei dias inteiros debaixo de um calor de 40 graus, vi o mundo em verde (demasiado tempo) e fiz o que melhor sei fazer: perguntar.
Insultei-a (inevitável em qualquer situação). Protegi-a da chuva e do vento. Não se livrou de algumas cicatrizes de guerra.
Até fizemos amigos depois de um "qual é a marca da tua?".
A minha é uma LX100. "Camarita", para os mais próximos. Foi a minha acompanhante durante estes 7 meses e 7 dias. E, sim, isto é uma declaração de amor.

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