Não faz mal ser diferente


Pode ser que sejas orelhudo, que tenhas o nariz grande, o cabelo esquisito. Dizem que és pequeno, pequenino, minúsculo. Pode ser a tua roupa de 50 centímetros fique larga, a boiar, ou, quem sabe, até pequena.
Mas não faz mal.
Das pontapés. Muitos. Tantos. Pedimos-te que fiques calmo, calminho, que não sejas ansioso. Mas, quem sabe? Podes ser tranquilo e introvertido como o teu pai. Figas. Ou inquieto e ativo como a tua mãe. Tu escolhes.
Vamos querer que sejas um pouco de tudo. O melhor de nós. Mas se quiseres ser algo completamente diferente, não faz mal.
Pedimos que nos deixes dormir à noite, que já nasças a saber mamar, que não chores muito, que sejas sorridente e empático. Mas se não fores nada disso, também não há problema.
O teu pai vai ensinar-te a gostar de planetas, astronautas e ETs. Vai querer jogar Super Mario. E oferecer-te um milhão de Legos e bandas desenhadas. Mas se não achares graça, não te preocupes. Eu também não gosto.
A tua mãe vai insistir para que fales português, que faças yoga e andes com ela de bicicleta. A tua avó galega vai apresentar-te o maravilhoso mundo dos livros. No Brasil vais ter um avô e um tio que vão falar contigo de futebol. Guarani ou portuguesa? Podes escolher. Mas se quiseres outro clube, ou nenhum, também pode ser. A tua avó brasileira vai ensinar-te a amar as plantas, a difícil arte de não ser preguiçoso e como ganhar os concursos de Miss Simpatia. Mas se não herdares esse seu lado, não faz mal.
Podes ser diferente.
Podes gostar de azul, verde, amarelo ou cor de rosa. De qualquer tom de pele.  Meninas ou meninos. Podes amar matemáticas, música ou ciência. Preferir os gatos, os cavalos ou nenhum animal em particular.
Não vamos mentir e dizer-te que não temos expectativas. É claro que temos. Prometemos ensinar-te tudo o que sabemos. Apresentar-te o mundo, cultivar a tua curiosidade e inteligência.
E assim podes ser tu a escolher. Sem pressão, sem tabus, sem percentis. Porque, filho, queremos que saibas que não faz mal ser diferente.

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8 meses. 8 meses que lá atrás, em dezembro, parecia que seriam uma eternidade.
8 meses em que fizemos tantas coisas juntos. Viajamos, conseguimos novos clientes, fomos a concertos e até trabalhamos para um festival de música. Fizemos yoga e natação para as dores nas costas. Crescemos. E gravamos um documentário .
8 meses escutando “que barriga tão pequena”. E repetindo sempre o mesmo: “Estamos ótimos”.
8 meses falando em plural.
Como será formar uma família sem esta espera? A espera que parecia tão longa e que agora parece imprescindível. Lembro-me de pensar que ainda só me sentia 60% mãe. Agora estou em 90, uns 93%, talvez.
Aprendi tanto. Aprendemos tanto. Vibrei com os primeiros “choques” na barriga, que eram os teus pontapés. Descobrimos que gostavas de laranja. E de fruta em geral. Tens uma música preferida e respondes com carinho à voz do teu pai. És um sortudo.
E nós, como família-em-construção, fomos aprendendo a escutar. A escutar-te.
Quanto tens fome. Quando estás a crescer e barriga dói. Não faz mal. Ouvimos-te e sabemos quando precisas parar, quando o destino é o sofá.
As caminhadas passaram de 17km a menos de um, mas as dores nas costas desapareceram. As idas à balança também. E a preocupação pelo corpo flácido, a roupa que não serve, o look que realça a barriga.
Aprendemos a fazer menos planos, a não ter medo a dizer não, "afinal não podemos", a passar uma noite de sábado em casa. Perdemos a fobia a descansar. Descansar e escutar.

Certezas

Lá vêm elas, cheias de certezas, opiniões. Sabem mais que o médico, que o ecógologo, o tocólogo, o nutricionista e a enfermeira. Elas sabem porque foram a conferencias, fizeram cursos, leram na internet. Sabem porque têm o instinto aguçado, confiam nas suas intuições. Fazem perguntas técnicas, planos de parto, estratégicas metodológicas sobre “lactância infantil”. Dão conselhos que são autênticas ordens. Faz isso. Não faças este outro. Isto sempre. Nunca. Jamais. E quando lhes dizem que vão ter uma menina elas dizem que não, que veja bem, que elas têm a certeza que é menino. O médico revira os olhos, bufa, volta a olhar... E não é que era mesmo menino? Quando lhes dizem que o seu bebé é pequeno, elas dizem que isso é impossível. Que só pode ser um erro médico. Que o ecógrafo estava distraído, que o exame foi feito à pressa, que querem outra opinião. Exigem uma segunda ecografia. O seu filho não é pequeno. Seria melhor substituir o médico por um algoritmo. Da interpretação dos dados, já se encarregam elas. E é aqui que eu entro. Que nós entramos. Sem certezas nem instintos. Será que isso existe realmente? Sem um sim absoluto, nem um não rotundo. “Confiamos na ciência”, diz ele. Vamos aos cursos sem grandes perguntas. Quando dizem descanso, descansamos. Primeiro à nossa maneira e depois de forma absoluta, sem gretas, com contadas exceções. Para nós espera significa esperar e descansa significa descansar. Comer bem quer dizer legumes, vegetais, frango assado e peixe no forno. Relaxar é fazer yoga de manhã, ler muito e dormir mais. E estás a ler sobre o parto, o percentil, as contrações, a subida de leite e a educação Montessori? Não. Estou a ler Ishiguro. E vou retomar o blog.


Dos dias

Há dias bons, há dias maus e há dias mais ou menos. Há dias com tanto trabalho que nem da para respirar e há dias com trabalho nenhum. A diferença é que nos dias "sem trabalho" vou passear com a Fina (a bicicleta), bebo uma caña com uma amiga ou aprendo algo novo. A costurar, por exemplo. Nos dias sem trabalho já não fico em frente ao computador a "fingir que trabalho". Isso é uma grande mudança.
Nesses dias lentos desenvolvo projetos, planos de futuro. E pensar não da dinheiro (por enquanto) mas também é trabalhar. Quando me perguntam o que faço, explico que trabalho "por conta própria", que tenho "horário flexível", que escrevo muito de manhã, faço conference calls, crio, edito, calculo, transcrevo e desligo o computador as 7 da tarde.
E isso é um privilegio.
Há dias bons, muito bons. Nesses dias faço yoga quando o sol está a nascer, jogo conversa fora enquanto o sol faz o céu ficar cor-de-rosa, tomo banho com shampoo e sabonete artesanais e cozinho um jantar saudável.
Nos dias mais ou menos tenho dúvidas sobre o futuro. Mas esses são poucos e passam rápido.

1 dia.

1 día dia foi quanto durou. Talvez um pouco menos: umas 8 ou 10 horas. Foi no domingo depois do almoço o dia em que pensei: por quê eu? e agora? como vai ser daqui para a frente? Recordei uma e outra vez "a conversa" da sexta feira anterior. As reacções de cada pessoa. A minha propia reacção. Como julgar?
Nesse dia tive a convicção que o meu novo estado acabaría com as minhas amizades, com a minha relação. Que passaria a ser uma pessoa desinteressante, depressiva, pobre. Que nada teria sentido.
- Se acabas comigo eu vou-me embora da Coruña - disse-lhe.
 - Nem pesar! Para onde é vais viver? - perguntou em tom de brincadeira.
- Para uma praia na Tailandia.
Esse sempre foi o meu plano B. Eu, que nem sequer gostei das praias da Tailandia. Eu, que nem sequer sou fã de praia.
Não respondi nenhum whatsapp e olhei para o teto durante horas seguidas. Recordei aquella discussão que tive com "a nova chefe", as ferias que tinha marcado, as pessoas de quem não me tinha despedido.
Não chorei. Nem nesse dia, nem no dia D, nem em nenhum outro.
A minha tristeza durou meio dia. Lembro-me muitas vezes dessas horas. O meio dia em que o meu futuro foi negro, vazio e solitario.
- E agora qual é o teu plano? O que vais fazer?
- Não sei, mas começo na segunda.

Ciclos

A vida é feita delas: montanhas cíclicas tantas vezes difíceis de subir. Ou impossíveis de fechar. Etapas. Momentos.
Às vezes queremos que a vida mude. Desesperadamente.
Mas nada acontece. Ou temos medo de fazer acontecer.
No fundo desejamos um ciclo novo, escalar uma parede de rochas virgens. Mas não temos coragem.
E um dia, chega alguém e te empurra.
Você não queria mudar?
Então agora vai lá e faz acontecer. 

Sexta-feira, 26 de maio, 16.30

O despertador tocou às 7 da manhã. Saí rápido da cama. Nesse dia (estranhamente) não tinha sono. Tomei o meu chá preto e torradas com marmelada de morango. Tudo homemade. Exatamente como eu gosto. Antes de gritar um apressado "tchau, até já" chegou uma alerta no celular: novo episódio de Radiolab. Me despedi feliz e com fones de ouvido. O capítulo era uma homenagem a eles mesmos pelos seus 15 anos de programa. Fui dando gargalhadas no meio da rua. No ônibus o condutor era aquele que sempre põe a rádio alta demais. Na RadioVoz o Pablo Portabales entrevistava o alcalde da cidade. A voz de Xulio Ferreiro se misturava com o genial Radiolab e decidi abandonar o meu querido programa. Não ouvi a entrevista e usei o meu tempo livre para procurar na internet: "qué hace que una canción sea pegadiza". Esse era a minha missão do dia. Cheguei a Sabón às 10h e apressada. Peguei um carro do trabalho, pus a Cadena Ser "a todo volúmen" e ouvi durante uma hora a Gemma Nierga falar sobre Cervantes. Não foi muito interessante. Estamos em pleno mês de maio e na quinta-feira eu tinha ido à praia, mas nesse dia, nessa sexta-feira que nunca mais quero esquecer, chovia muito. Diluviava. E eu precisava chegar rápido a Santiago. Parei no posto para encher o tanque e estacionei debaixo de uma goteira. Saí do carro, encharquei o tênis e tentei por dísel ao invés de gasolina. Quase fiz um estrago. Me atrasei. Eu nunca me atraso. Ao chegar estacionei dentro de uma poça e sujei de barro o meu tênis já molhado. Quando entrei o Marco já tinha começado a entrevista. Fiz as minhas perguntas e as respostas me fizeram feliz. Senti que o meu dia estava melhorando. Só que não. O caminho de volta foi outra vez debaixo de chuva. E nesse momento fiquei menstruada e irritada. Pedi um tampax emprestado. O almoço foi tortilla e pechuga de pollo con pimiento. Comi uma melancia de sobremesa. Rimos muito no comedor. O assunto foi a possível futura namorada do Lois. Ele não gostou do tema. O Abel sentou do meu lado e fez piada o tempo todo. Falei que tinha que voltar rápido para a redação porque tinha que acabar a matéria e sair às 19h para ir pegar a minha amiga turca ao aeroporto. - Mas não precisa ter pressa, você ainda tem 4 horas para fazer a matéria - me disseram. Eu respondi que estava adorando fazer essa reportagem e queria que ficasse boa. A Cris apareceu e pedi uma opinião e ela respondeu: "o que você achar melhor está bom para mim". Estranhei um pouco. Foi às 16.30 que o Abel subiu e perguntou se eu podia sair um minuto. Sai sem carteira nem celular. Sexta-feira, 26 de maio, às 16.30 de um dia de muita chuva no meio de uma semana de sol e praia.Sexta-feira, 26 de maio, às 16.30 no dia em que estava fazendo uma reportagem que "queria que ficasse boa" (outros acabaram essa reportagem por mim e não ficou boa. Ficou péssima). Sexta-feira, 26 de maio, às 16.30 no dia em que uma amiga que não via há 5 anos vinha me visitar Sexta-feira, 26 de maio, às 16.30 no dia em que ia sair do trabalho às 19h e acabei saindo as 17h. Para não voltar.

Tikilitikili

E entao puseram-nos num camelo. Cada um com a sua garrafa de agua. O ritmo era lento. As costas sofriam, a areia entrava nos olhos mas quando os graus desceram, aquele deserto com plantas, excrementos e bichos que davam puns em andamento, foi ganhando cor. O sol pintou a areia de amarelo, e a paisagem árida, plana e desinteressante transformou-se em perfeitas dunas. Dunas virgens. Os nossos camelos chamavam-se pineapple e king kong. Tentamos fugir da turistada. Deixamos os homens a cozinhar. Faziam chai, curry, arroz, chapatti. Muito ou pouco spicy? Nos só queríamos escapar!
Subimos e descemos montes de areia, saltámos, disparámos fotos a turnos.
Com a noite chegaram as estrelas e os escaravelhos. "Não são perigosos" - defenderam os homens do deserto- "so fazem tikilitikili.
Já não nos lembrávamos dos bichos encorvados com nomes americanos. Eramos só nós e as estrelas com constelações inventadas e um ou outro grito histérico sempre que um escaravelho queria subir pela nossa perna. Não era medo. Era só a natureza a fazer tikilitikili.

Chilique

Le enseñé la palabra "chilique", "dar chilique", le dije. Porque en los viajes los chiliques son inevitables. A mi me puede el hambre, los hoteles sucios, la falta de ventanas. Él se deja derrotar por el cansancio, el dolor de cabeza, el exceso de calor.
Yo quiero salir, él se quiere quedar. El eterno dilema.
- Viajamos parecido - comentamos con orgullo.
Nos gusta callejear, visitar lo mínimo, turistadas las justas. Nos gusta comer bien, movernos mucho, mochila ligera y camara de fotos a mano. Yo pido sunset, él pide cerveza.
Pero no hay perfecto.
- Oye... Estás dando chilique? - pregunta él cuando me enfurruño por un baño sucio o por su mania de "no desayunar ni comer". Le digo que sí, seria. Acabamos riéndonos. Concluyo que el chilique nos vino a salvar de los chiliques. Ponerle nome extranjero ayuda a quitarle dramatismo al mal humor viajero.

Delhi

Um mendigo dorme no chão. Un senhor cozinha numa panela que nunca viu agua. Uma mulher da um empurrão à criança pedinte. Um cão desmaia com o sol do meio dia. Uma turista mostra o hombro e os homens se escandalizam.
Faz calor. A comida das calçadas apodrece, as moscas aproveitam, os homens mancham as camisas de suor, as mulheres mostram a barriga por baixo do sari. Isso não choca ninguém.
Eles gritam e bailam com a cabeça. Bebem agua filtrada. Ou não. Limpam o prato com um pano antes de comer. Pena que o pano esteja sujo.
Não vestem branco nem preto. Vestem colorido. Sem medo. Não usam óculos de sol ou rabo de cavalo. O verão se combate com um pano na cabeça.
São 3 da tarde e é hora de ponta. Não cabe mais ninguém no metro. Mas eles empurram e se misturam entre gotas de suor. Um token a cambio de um vagão com ar acondicionado. 

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