15.5.16

Perdida

Decido esperar. Esperar porque "só o tempo dirá", "o futuro traerá coisas boas", "não podemos controlar o mundo" ou "a felicidade bate à porta". Não bate, asseguro-vos que não bate.
Esperar que o trabalho melhore, que ganhemos mais dinheiro, que tenhamos mais responsabilidade. Esperar aquela vida de filme. Ou até a daquele amigo que se saiu bem. Tu não. E por isso esperas.
Aguardas que venha um bom vento, que tropeces com o futuro, que tudo mude de repente.
Não muda.
Então sentes-me perdida e, sem rumo, não podes tomar decisões vitais. E não as tomas, esperas.
Tic-tac. O tempo passa e o futuro não chega. Nem aquela boa casa, bom trabalho, os amigos que são familia. Não chegam. Desiludem-te. Um depois do outro. E enquanto isso tu esperas.
Buscas mapas e placas convertidas em formato de blog. Não serve. Enganas-te. Preenches o tempo como melhor sabes. Vegetas, ocupas, projetas dia a dia.
Até que hà um momento que alguém diz: "Esquece, não adianta esperar". E tu perdida te confessas e aceitas. Paras de deixar passar.

11.4.16

(quase)

Diz o Paul Mason que no futuro viveremos (quase) sem dinheiro e eu (quase) acredito.
Porque talvez não sejamos a geração perdida. Talvez não tenhamos uma vida pior que a dos nossos pais. Talvez tudo seja uma questão de perspectiva.
Jantar fora está "out" porque o que está "in" é cozinhar. Já não compramos sabão nem creme hidratante. Fazemos em casa. Na aldeia cultivamos kiwis e pimento picante. Vem dai um tomate da horta e cebolas caseiras. Os pais do meu amigo têm galinhas, os meus têm ameixas. Trocamos.
Vendemos aquela televisão que havia lá em casa e que só ocupaba espaço. Ganhamos quase cem euros e respiramos de alívio. Vens visitar a minha cidade? Alugo-te um quarto e faço-te o pequeno almoço.
As aulas de inglês, faço na escola pública e os livros e os filmes estão todos online. Nada de comprar pipocas de microondas, as de milho de verdade é que são boas.
Também é melhor o pão caseiro e o doce para o café da manhã. Almoçar numa esplanada em frente ao mar? É mais divertido un piquenique debaixo da árvore.
Se o meu vizinho tem internet, un "alargador de sinal" faz-nos a todos mais feliz. ¿Comprar fora dos saldos?, isso é gastar por gastar.
Talvez o que o Paul Mason queria dizer é que somos a geração dos forretas. Dos que compram as ferias com un ano de antecedência e vão por ai gabando-se do bom negocio. Se calhar o "gratis" é mesmo a nova forma de vida.
Ou (quase) a única vida possível.

10.4.16

O que mudou?

Não sei se fui eu ou foste tu. Se foi o mundo. Se foi um país sem presidente, o outro em processo de impeachment e o terceiro a governar em minoría. Quiçá nada mudou.
Mudou o ritmo das tardes de domingo. Os hobbies. As noites demasiado cansadas a dormitar no sofá. Porque o sofá, definitivamente, não mudou.
Quiçá deveria. Deveríamos ter mudado o sofá e a factura do banco. Ter expulsado a preguiça e melhorado a nossa organização. Deveríamos comer melhor. Mas isso não mudou.
Não mudámos com a distância nem a convivencia. Com os whatsapps descompasados. Con o jetlag e as ligações frustradas. A saudade não nos mudou. Deveria?
Mudou, talvez, o sorriso. A postura. O olhar. Mudou, quem sabe, o futuro. Mas isso só o futuro sabe.
Mudou a tranquilidade, o silêncio, o chá de menta fresca. Isso, definitivamente, mudou.
Aquela gargalhada entre paredes cinzentas e o respirar fundo. Mudou a profundidade da minha respiração. Isso sim.
Tudo mudou para não sair do lugar. Ou esse lugar nunca foi seu. Ninguém saberá o que teria sido se nada tivesse mudado.
Essa é a verdade.

9.4.16

Isto é uma declaração de amor.

Sete meses. Um pouco mais. Exatamente sete meses e sete dias. Curioso.
10 países e três capítulos. Sempre com um verbo em conjugação automática: recomeçar.
Foram 220 dias de solidão acompanhada, de uma "viagem interior" diriam os mais "cursis".
- Mas foste sozinha? - É uma das perguntas mais frequentes. Deveria responder que sim. Sem amigos ou namorado. Sem agenda nem compromissos.
Mas não.
Ela foi a minha companheira incansável. Quem soube encher com um clic o silêncio dos días mais duros. Fez terapia a través da sua lente. Com ela passei dias inteiros debaixo de um calor de 40 graus, vi o mundo em verde (demasiado tempo) e fiz o que melhor sei fazer: perguntar.
Insultei-a (inevitável em qualquer situação). Protegi-a da chuva e do vento. Não se livrou de algumas cicatrizes de guerra.
Até fizemos amigos depois de um "qual é a marca da tua?".
A minha é uma LX100. "Camarita", para os mais próximos. Foi a minha acompanhante durante estes 7 meses e 7 dias. E, sim, isto é uma declaração de amor.

1.3.16

Capitulo III, a familia

Nesta historia com 3 atos, o sandwich foi familiar. Sempre me impressiona o seu poder. O poder da familia reunida onde tudo é como antes. A música de domingo. O peixe no forno. A farofa com arroz. Todos à mesa. Agora somos mais, pesa-nos a idade. A casa mudou, a mesa também. Fazemos comida light e pomos o ar condicionado no máximo. Bebemos (muito, diriam alguns) e falamos alto (quizás demasiado).
A minha familia é intensa, barulhenta, independente. São acolhedores como ninguém. Sempre pensei que a minha era melhor que a de todos os outros. Continuo a pensar.  "Estás tão longe", comenta-se. Já há muitos anos que não me queixo.


18.2.16

Capitulo II, Os Amigos

Eles vêm buscar-te ao aeroporto, abrem-te a porta de casa em pijama e, cara ensonada, sorriem quando te veem. Com eles rio, conto, falo. Falo, falo, falo. 6 horas seguidas, sem aborrecer, 24 horas, noites a fio. Gargalhadas abafadas até às duas da manhã.
Com eles, os amigos, tudo está bem. Comemos do mesmo prato, usamos a mesma prateleira do frigorífico e dormimos na mesma cama. "Contigo não há ca cerimonias", dizem. E aquecem-me a alma.
Tanto faz se te dói a garganta e preferes ficar em casa. Se jantamos comida de ontem. Se recusas o jantar e ficas-te pelo chá. "O importante é estar juntos". Olhadas cúmplices na rua, abraços e beijos que a vida adulta nos tirou.
Os amigos são casas espalhadas pelo mundo. "Que sorte, és tão internacional", comentam. Sorte e saudade. Ter amigos como os meus é conjugar esse verbo a través do whatsapp. É passar semanas, meses, sem um "ola, bom dia" e acabar metida na sua casa, encaixada na sua rotina.
E quando pensava que esta viagem acabaría num eu mais independente vejo-me aquí, saudosista, a gabar os meus amigos.

3.2.16

Saudades, Lisboa


Estes dias de inverno com sol, esse jeito bruto de ser. 
Um afeto pouco palpável. Um humor de mal humor. Goza, humilha, critica e reclama. E vem dai uma chapada. Carinhosa, claro. Hahaha. Que cómico.
Saudades. Ao ver os bancos de namorados ao sol. Foram tantos jardins, tantos bancos de jardim. Tantas horas no sol de inverno a alimentar um qualquer amor adolescente. Não, não foi para sempre. Mas valeu a pena.
Sorrio ao ver o semafro da avenida de Berna. A faculdade em forma de livro. A pastelaria dos queques gigantes. Não me lembrava que a estação tinha cheiro. Mas tem. 
Saudades da tosta mista, do carioca de limão, da torrada e do silencio da cidade. Paradoxo.
Estas ruas que na verdade nunca foram minhas. Que pena. Sempre quis ter uma cidade como esta.
Uso mapas como se fosse turista e sinto falta daquilo que não tive. Um filme no São Luis, um copo no Cais do Sodré, um amigo que liga "pra saber se ta tudo bem". Digo palavras que não existem. 
Só eu percebo a importancia de comer castanhas em fevereiro. Só eu me emociono com um "queres erva?" dito no meio do Rossio. Só eu suspiro com o som reconfortante do comboio depois de um dia cansativo. É terapia barata: 2,05.
Volto a Lisboa e sou adoledcente. Não tenho 30 anos nem uma vida independente. Sou eu, de cabelo vermelho, roxo, loiro (tanto faz), a falar alto, a gritar, a jogar ao lobo, a passear com cachecois que se arrastam no chão, a almoçar de domingo em frente ao mar. 
Sou eu. Ou se calhar não.

27.1.16

Ganhaste a loteria?

Para todos aqueles que não conseguem resistir ao comentario, aqui vai (de uma vez por todas) a minha resposta.
Sim, vou viajar de novo. E não, não ganhei a loteria. Vou viajar com o dinheiro que poupei não comprando roupas de marca nem carros topo de gama. Vou viajar por todas aquelas vezes que não fui às rebajas, por todos os presentes que fiz e não comprei, por todos aqueles jantares caseiros, pelas botas que duram vários anos e os bikinis também. Pelas vezes que repeti vestido em casamentos e batizados (hereje!). Viajo com o dinheiro de anos trabalhando das 12h às 12h. Andando de bicicleta e não de carro. Com o dinheiro do carro de vendi viajo para longe, bem longe, e gasto o mesmo que tu naquelas ferias em Ibiza. Quando viajo divido quarto, experiencia, banco do autocarro e até almoço. Visito amigos e poupo em alojamento, comida e sorrisos falsos.
Sim, vou viajar outra vez e os voos foram bem baratos (obrigada pela preocupação). Não, nunca traigo "presentinhos" quando viajo. Desculpa. Mas sim traigo (muitas) fotos e acho que é suficiente.
Não sou rica, mas se fosse, ¿o que é que tens a ver com isso?. Não sou rica, e se fosse, talvez não viajasse tanto. Ou não conhecesse tantas pessoas. Ou não tivesse tantas historias.
Sobre a loteria, não, não jogo. Poupo esse dinheiro para a minha próxima viagem.

26.1.16

Capitulo I - Os desconhecidos

Eu, na verdade, nunca gostei muito deles. "Odeio pessoas", costumava dizer. Não gosto dos dramas, das fofocas, do disse que disse o primo do fulano. Em geral, nem sequer gosto do fulano.
Quando comprei aquele bilhete de avião buscava mais a introspecção que as gargalhadas. Ganhei os dois e nem sabia.
Fui porque sim, fui porque fui. Sem mais. Não sei bem o que buscava, porque buscava um pouco de tudo. Desintoxicar. Poder escolher. Se não gosto de ti, oh desconhecido, digo-te adeus, bye bye, I'll see you around. Se gosto, conquisto-te com uma cerveja de 20 cêntimos.
Acho que buscava a simplicidade. O branco e negro dos amigos que não duram mais de uma semana.
Tu sim, tu não. Nós sim, nós não. Gosto disso.
Esta é uma ode aos desconhecidos e às conversas de autocarro. "Eu conheço aquele desconhecido", disse um dia. "Sim, esse que vai com as calças rotas e sem camiseta". Dei-lhe um abraço. Desses que só dão os amigos.

21.1.16

Das rotinas

Quando vivia com os meus pais não tomava café da manhã, almoçava pouco e jantava muito. Víamos televisão na cozinha. Quando era adolescente ligava todas as noites para o meu namorado de turno. Os namorados mudavam, o hábito não. "Mas vocês acabaram de se ver, o que têm ainda para conversar?", me perguntavam. Eu ignorava o comentario e digitava cada noite os mesmos números.
Na Italia, por exemplo, não faltava a nenhuma aula. Saia da discoteca, tomava banho e ia para a faculdade. Dormia nos intervalos, mas não perdi nenhum dia.
Quando morava com a Nonna saia de casa às 7.15, pegava dois ônibus e um metrô. Voltava tarde e cansada mas o meu prato sempre estava no microondas.
Um dia, quando já morava na Espanha, tive saudades do Nonno. Foi então que me lembrei de como ele molhava as bolachas María no café. Eu não gosto de café e adaptei a técnica ao copo de leite. Não é que funcionou? Não tem nada mais reconfortante.
A minha avó, a vovó Leda, me deu um dia um colar. Adorei e coloquei na hora. Não tirei mais. Passaram anos e um dia o colar quebrou. Tive uma crise de ansiedade e liguei para ela: "Vó, está tudo bem? É que o colar quebrou... achei que podía ser um sinal..."
Em Madrid jantava 7 dias por semana quatro torradas com tomate e orégano. Uma baguete de pão durava 2 dois dias e a caixinha de tomate do Mercadona aguentava a semana inteira. Às vezes trazia restos do almoço para casa e jantava duas vezes.
No meu primeiro ano da Coruña só ouvia Bob Dylan. Em Turin chorava ao som de Ana Carolina.
Quando há eleições passo o dia escutando canções revolucionarias.
Durante um tempo corri. Depois nadei. Fui na academia. Fiz spinning. Andei de bicicleta. Fiz exercício em casa. Nunca atingi os meus objetivos. Nunca persisti muito tempo.
Agora acordo todos os dias uma hora antes do resto do mundo só para tomar um chá preto. A partir desse momento, não tenho horarios. Liberdade. "Quero aproveitar o meu tempo livre, quero aproveitar o meu tempo livre", é o mantra que toca en repeat na minha cabeça. E com tanto mantra e tanto tempo, me perdi.
Sem rotina o tempo foge.