O verdadeiro espirito de Natal

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Hoje de manhã convidei-me a mim mesma para ir às compras. E lá fomos nós, eu e eu, para o centro de Madrid à procura de um presente de Natal. As lojas estavam lotadas e o ar condicionado no máximo. Então toca a tirar o gorro, o casaco, o cachecol e a camisola. Prova uma roupa, outra, esta não fica bem, aquela faz-me gorda e, de repente: “Onde está o meu casaco?” Procuro por aqui, por ali, por todos os sítios que estive e nada. “ Não há problema”, pensei, “os senhores da loja devem tê-lo arrumado”.
Estava eu então a dirigir-me à caixa para perguntar pelo digo abrigo quando reparo que há uma rapariga na loja a usar um casaco igual ao que eu tinha perdido.
Primeiro surpreendi-me, Que coincidência, disse para mim mesma, é um casaco tão velhinho e esta rapariga tem um igual. Mas depois parei.
Espera ai.
Comprei este casaco há quatro anos. Em Portugal. Qual seria a probabilidade de uma pessoa, em Madrid, ter o mesmo casaco que eu no exacto momento em que o meu desapareceu?
- Olhe, desculpe, esta pergunta pode parecer um pouco absurda, mas esse casaco que está a usar é seu?
- Claro que é meu, que raio de pergunta – diz a loirinha impertinente.
- É que eu acabei de perder um casaco igual a esse.
A rapariga muda de cor.
- Está a insinuar que eu roubei o seu casaco?
- Mmmm… sim e gostaria que mo devolvesse.
A conversa tinha subido de tom e os seguranças da loja aproximaram-se:
- Algum problema?
- Esta senhora roubou o meu casaco. Eu deixei-o numa prateleira, ela tirou-o, vesti-o e agora diz que é seu.
- A senhora pode provar o que está a dizer? – pergunta-me o segurança.
- Não, mas pode ver nas câmaras de vigilância
- Não temos câmaras de vigilância.
Isto não me podia estar a acontecer. Roubaram-me o meu próprio casaco, na minha cara, eu identifiquei o ladrão e agora não o posso recuperar? Queria chamar a polícia, mas “não vai servir de nada porque é a palavra de uma contra a outra”. Queria bater-lhe, puxar-lhe os cabelos loiros oxigenados, pisa-la, cuspir-lhe na cara.
- Senhor segurança, convenhamos, não é preciso perceber muito de moda para ver que esse casaco fica enorme a esta mulher. O casaco não é dela! Não vê que é o meu número?
Não, ele não via. E era melhor baixar o tom ou ele teria de me convidar a sair do estabelecimento.
Então fiz tudo de maneira instintiva: virei as costas, respirei fundo, escolhi um casaco novo, paguei, vesti-o e voltei a passar pelo meu casaco velhinho personificado de brasileira de cabelo oleoso:
- Olha, oh ladra, comprei um casaco novo – gritei-lhe da outra ponta da loja – muito mais giro que o que me roubaste. O meu outro casaco estava velhinho mesmo, pode ficar para ti, não faz mal, eu ofereço-to. Considera-o como um acto de caridade.

O Natal faz destas coisas. Ressuscita o lado mais solidário que há em nós.

A geração desencanto

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Fomos enganados.
Disseram-nos que seriamos melhores, mais cultos, que estaríamos no topo do mundo, que a educação era a nossa principal virtude. Então sentámo-nos naquelas mesinhas de madeira, enchemos cadernos de canetas coloridas, recitámos poemas em voz alta. Tivemos noventas, cens, dezoitos e vintes. Usámos óculos e dicionários. Fizemos da vida uma espera. Uma espera pelo almejado futuro esplendoroso.
Entrámos nas melhores faculdades, aprendemos sobre Foucault, Heidegger e Nietzsche. Semiótica, teoria do texto e cultura contemporânea. E como se não bastasse, viajámos. Conhecemos o globo com a palma dos nossos pés, experimentámos novas culturas, brindámos em línguas estrangeiras, discutimos política com comunistas e fascistas, com democratas e republicamos. Aprendemos línguas, lemos os clássicos, ouvimos as vanguardas musicais. Absorvemos o mundo.
E quando voltámos, esperámos. Porque se fores bom, as portas nunca se fecharão. Disseram-nos um dia, e nós, ingénuos, acreditámos.
E então aqui estamos nós, esta geração enganada. A geração dos livros, dos cursos e dos mestrados. A geração do estudo, quando, de repente, o que importa já não são os manuais. É a crise, dizem. E nós somos os azarados. Ou talvez sejamos apenas jovens enganados, absorvidos pelo sistema. Demasiados desiludidos para poder lutar. Porque garantiram-nos que seriamos melhor que os nossos pais e o nossos filhos também nos superariam. Mas, de repente, parece que o mundo está a girar ao contrário e nós, bem… Nós já nem sequer sabemos se queremos ter filhos.

O Fernando, parte II

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- Ele sabe ler os lábios – tranquilizou-me o camera – basta que lhe fales sempre de frente e que separes bem as palavras.
Parecia fácil.
Depois de algumas tentativas falhadas e outras que foram salvas pela linguagem universal, concluímos: “É que os estrangeiros devem vocalizar as palavras de maneira diferente”.
Mas eu insistia, esforçava-me, vo-ca-li-za-va o melhor que podia e no final recebia sempre o mesmo sorriso com os indicadores a girar em espiral: “repete”. E eu, frustrada, repetia uma e outra vez, cada vez mais intensamente. O Sérgio, vendo o ridículo da situação, salvou-me enquanto me piscava o olho com um ar paternal:
- Marina, ele não ouve, não vale a pena gritares.
Corei pela segunda vez na mesma tarde.
A curiosa dupla de jornalistas trabalhava para um programa de linguagem gestual. A ideia era que os actores da nossa serie dissessem uma frase utilizando a “lengua de signos”. O Fernando era o professor. Ele explicava, pacientemente, cada gesto e a expressão fácil que este acarretava. Era preciso “dizer” tudo seguido, “como se fosse uma frase”, explicava o santo professor que nem sequer se importou que gozássemos com a palavra “actor” por parecer-se a um passo da “Macarena”. No final do vídeo, os actores deveriam ler em voz alta a frase que tinham acabado de “gesticular”.
Quando o primeiro actor acabou a sua leitura, pareceu-me que a voz off tinha ficado perfeita e resolvi perguntar:
- O que achas Fernando? Serve?
Então ele olhou para mim com uma enorme cara de burla e disse com a sua voz de soluços:
- Não sei Marina, é que não consegui ouvir.
E eu corei. Outra vez.

O Fernando

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Tínhamos combinado no platô às quatro da tarde, mas a gravação estava atrasada. Como sempre, atrasada. Então eu fui ao bloco de notas buscar o número de telefone que a rapariga de produção tinha me passado durante a manhã:
- O Fernando, o jornalista, vai com o Sérgio, o camera. Tens onde apontar o número do Sérgio?
Eu tinha. Apontei o seu telefone num carderninho e não duvidei. Na hora do aperto, toca a marcar o número, mas o Sérgio, claro está, estava a guiar e todos sabem que falar ao telemóvel e conduzir são menos 2 pontos no “carnet”.
Então eles chegaram, antes do tempo, mas chegaram. O Fernando e o Sérgio.
- Marina, encantada – apresentei-me. E lá comecei a largar o meu speech. Que “sabem como é uma rodagem, tudo muito imprevisível”, que “as sequências com muita gente são complicadas”, que, “desculpem”, mas vão ter de “esperar um pouquinho”. Mas “já agora querem visitar o platô?”, “é por aqui, eu faço-vos um tour”. E eles acenavam com a cabeça e seguiam-me. Então “aqui vive a família mais rica” e “esta é a cozinha dos mais pobres” e “aqui são as barricas artesanais” e “aqui onde o vinho fica a fermentar”, digo eu no meu sotaque de espanhol estrangeiro.
E então olho para o relógio e respiro fundo. Tinham passado uns 15 minutos, mas não poderia mantê-lo entretidos a tarde toda. “Acho que ainda vão ter de esperar uma meia hora”, minto. E, pela primeira vez, olho-os nos olhos. Constato que o Fernando tem um ar assustado:
- Até que horas vocês podem esperar? - pergunto-lhe, prevendo o pior.
Ele abre um sorriso e dá-me um beijo:
- Olá, sou o Fernando, sou surdo – diz-me com aqueles sons quase imperceptíveis de quem não ouve a sua voz.
Ele ainda estava a apontar para o ouvido quando eu caí em mim. Para ele tínhamos ficado na parte das apresentações.

Proprio quella, del Piemonte

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Eu sou assim, esquecida. Memória de peixe, come queijo, cabeça de velha. Sou como o armário lá de casa: entra um novo sai o antigo. Sou pessoa do presente aterrorizada pelo passado.
Mas ontem houve uma ideia que me preocupou especialmente e que me deixou toda a noite a dar voltas entre os meus dois edredons nórdicos: “E se um dia me esqueço dela?”, perguntava à minha cabeça oca.
Da cidade dos gelados de iogurte que acompanhavam as tarde de frio, das focaccias compradas na portinha da Via Pó. Daquelas arcadas que guardam tantos segredos. Do Xó e do sangre de Judas. De Bardonecchia e da Notte Bianca. Do Nano e o seu amigo Strano. Do LD e da Strada del Fortino. Do Sponda. Seria impossível esquecer o Sponda.
A semana passada apercebi-me que já nao me lembrava do andar em que vivia. Do numero da minha porta, nem do meu telemóvel. Essas memorias já perdi. Já se foram para a caridade junto com a roupa usada.
Mas e se o tempo passa e eu esqueço-me também dos Murazzí e da Piaza Vittorio Emanuelle? Do monte Capuccino e do tram 16. Da Porta Nuova, da Porta Susa e do eterno "ritardo dei treni". Da Fontana de Trevi e daquele chinês ao lado do cinema. E se daqui a uns meses já não me lembro da Guianduia, da Mole e de Soperga? Logo agora que já clicaram no “delete” em todas as músicas de apoio ao Toro.
Então eu escrevo. Compulsivamente, escrevo. O nome da Piazza Castelo e da Piazza San Carlo. Da Rondò della Forca com gli extracomunitari. Do Valter, (recuperei o seu nome do fundo do caixote, um autentico bem ao ambiente) e do Manuale de Amore. Tento convencer-me que os espaços físicos são secundários e o que importa mesmo são os momentos, aquelas histórias contadas, recontadas e finalmente calcadas nesta cabeça de peixe morto. Mas quanto mais anoto, mais me aterrorizo. Profundamente e dramaticamente, aterrorizo-me.
Porque subjacente a todas esta palavras, paira a inevitável pergunta:
"E se um dia acordar e não me lembrar sequer do nome da minha Never Land?"
Torino, proprio quella, del Piemonte.

A menina namoradeira

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Comecei a namorar aos 14 anos. Ele era o meu melhor amigo. Estivemos juntos uns 6 meses. Sentávamos um ao lado do outro no cinema e comíamos Mcdonalds. Namoro moderno, pensava. Um dia ele deixou-me. Assim, sem mais nem menos. Rapidamente fiz um novo melhor amigo. Este era diferente, mais normal, pode-se dizer. Então com ele planeei uma vida lado-a-lado, sonhei-nos a contar aos nossos filhos a nossa longa história de amor. E então chegou o dia em que ele me disse: “Marina, temos de conversar”. E eu chorei. Chorei muito, como se a vida não tivesse mais sentido. A minha mãe, abismada, dizia-me “filha, és muito nova, a vida continua” e eu nesse momento estive a ponto de estrangula-la, como é que ela não via que ele era o amor da minha vida? Seis meses depois (e vários litros de lágrimas derramados) tive um novo namorodo. (Quem diria, ahm?) Ah, mas esse nem conta. Então veio o outro, logo a seguir, quase emendado. Namoro especial esse, prefiro não comentar. Então o trauma do namoro anterior levou-me a tomar uma decisão radical: queria estar solteira durante um ano. Uma semana depois do prazo superado, la me meti eu em mais uma. Namoro longo. Namoro estável. Sem grandes sobressaltos (nem grandes emoções). Um dia ele arranjou outra. Terminou comigo por telefone e, pela primeira vez, senti que me doeu o coração, aquela dor profunda, uma pontada demasiado forte para aguentar. E não teria suportado se não tivesse encontrado o meu seguinte namorado, e que lufada de ar fresco. Secou-me as lágrimas e pôs-me a sorrir. Viajámos o mundo e comemos batatas fritas, até que um dia, puf. “Foi melhor assim”, dizemos até hoje, mas no fundo ninguém o sabe ao certo.
Tudo isto para concluir que há oito meses que não tenho namorado. O que é praticamente um período de namoro solitário, mas tem sido difícil. Não sei se é feliz ou infelizmente mas não posso acabar comigo, nem vice-versa. Não me levem a mal, acho mesmo que sou um bom partido, mas só queria alguém que me oferecesse gomas quando estou triste. E, entretanto, a vida segue, e hoje vou ao cinema com o meu novo namorado, que é como quem diz, comigo mesma.

O mundo em que vivemos, parte II

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Estávamos sentadas num daqueles compartimentos de quatro pessoas do comboio. Elas, espanholas que não falavam inglês, eu, dez anos de british council e em busca de companhia para as 5 horas de viagem. Então surgiu a amizade e com ela a conversa sobre a vida madrileña e a vontade de comprar umas galochas, A eterna crítica à qualidade do café inglês e a constatação de como é bom viajar. E a cumplicidade foi aumentando, até que uma das raparigas comenta:
- Ah, e quando voltar de Cardiff vou a Paris – diz a loira dos brincos de pérola.
- A serio? Vais adorar! Sabes que eu sempre que estou em Paris tenho a sensação que em todas as pontes há um rapaz a pedir a namorada em casamento – confesso, sem entender muito bem porque lhe contei aquilo.
- É uma cidade muito romântica – sintetiza a morena com um blush demasiado vermelho para o seu tom de pele.
- Não me digas isso – preocupa-se a loira de madeixas recém feitas – O meu namorado sempre me disse que um dia me pediria em casamento em Paris... O problema é que outro dia ligou-me a dizer que já tinha comprado bilhete. Meu Deus, sou muito nova para casar.
Eu ri-me e a amiga franziu as sobrancelhas. A situação foi salva pelo quarto elemento feminino do nosso compartimento do comboio. A senhora idosa junta-se à conversa e tenta resolver a situação:
- Não te preocupes filha… Estando as coisas como estão aposto que lhe confiscariam o anel de diamantes no Raio X do aeroporto.
O casamento é uma arma potencialmente letal, conclui. Este é o mundo em que vivemos.

O mundo em que vivemos...

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Eram umas 50 pessoas as que estavam fechadas naquele autocarro. Havia o problema da gripe A, do vizinho que cheirava mal, da senhora que falava alto e do motorista que, sabe-se lá, podia não saber conduzir. Mas no fundo, bem no fundo, o receio era outro. De repente, PUM. O estrondo foi tão alto que o autocarro saltou em coro. À minha direita um grupo de amigas gritava, as que estavam atrás recuperavam-se de susto e a senhora recém-divorciava aproveitava o momento para refugiar-se nos músculos do seu novo namorado. Os mais racionais olhavam à volta, “mas o que foi isto?”, ouvia-se repetidamente. Não demorou nem um minuto mais e, subitamente, ouve-se outra vez: PUM. As amigas abraçaram-se e o grupo da esquerda soltou um vasto rol de asneiras. O motorista, que, seguramente, faz desta rotina um prazer, gritou com voz de troça: “Tranquilos, estava só a fechar a janela”.
Metade do autocarro riu-se do patético da situação, a outra metade preferiu insultar o motorista de sentido de humor duvidoso.
Olhei para trás e uma menina limpava a sua lágrima de nervosismo.
Este é o mundo em que vivemos....

Visita de médico

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Vistas bem as coisas, foi só um dia. Mas nesse dia houve tempo de visitar castelos, debater a situação actual do jornalismo, passear pelos parques de folhas vermelhas e fazer bolas de neve na feira de Natal. As horas esticaram-se e comemos bacon com feijões agridoce ao pequeno-almoço e bebemos uma Fosters ao jantar. Um brinde aos velhos tempos.
Deu para dormitar nas cadeiras do teatro vermelho e até para culpar o humor britânico da nossa nula compreensão das piadas com sotaque cerrado. Tive direito a festas Erasmus e a frango recheado com pesto. Comi cabelos que sabiam a batatas fritas e salivei com as fontes de chocolate no meio da praça. Vibrei com o rugby nacional e fui abençoada com o sol daquela manha de Outono. E, já agora, que todos fiquem a saber que só sobrevivi às nove horas de viagem graças às rezas de uma amiga indiana. Dhanyavadh.
Por aquelas terras também havia dragões vermelhos na rua e esquilos a passear nos parques. O museu fechava às cinco e a roda gigante custava quatro pounds. Too expensive. Ela falava de Gales e eu de Espanha. No fim acabei por lhe pegar a minha cadencia portuguesa e ela concluiu uma vez mais que não tinha personalidade linguística. Ainda podia falar-vos daquele amigo que queria pronunciar “eu comi seis pizzas” e acabou por dizer “eu comi seis pichas”, mas isso seria demasiado obsceno para este blog. Se houvesse mais espaço contar-vos-ia do italiano comunista que tem sotaque britânico, do galês que esconde o crânio por trás dos músculos e do americano que mais tem pinta de europeu. Mas não há mais tempo, porque o dia acaba e como ele esta pequena aventura, ou melhor dito, esta exótica visita de médico.

!Cambio!

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No meu novo ginásio não há computadores nem máquinas cardiovasculares. A balança é analógica e só há duas funcionárias (as donas do local).
Cambio
As coitadas são tão baixinhas que não conseguem pôr a grade da porta totalmente para cima e, então, eu tenho sempre a impressão que os vizinhos da frente acham que ali dentro há um negócio ilegal de tráfego de mulheres vestidas com roupas justas.
Cambio
Como são pessoas pequenas, não lhes importa que o seu estabelecimento tenha a mesma área que a sala a minha casa e apenas 10 máquinas à disposição das suas sócias. Parece-lhes normal. Acolhedor, dizem as 30 mulheres que todos os meses pagam 40 euros por este serviço especializado.
Cambio
Sim, mulheres, porque outro dia apareceu o namorado de uma delas e as sócias gritaram em uníssono: “Chooo, aqui não entram homens”
Cambio
Só há um que tem permissão para passar da porta meio gradeada. E, na verdade, nem é bem um espécime masculino. É só uma voz forte e autoritária que nos acompanha todos os dias durante meia hora. E que de trinta em trinta segundos grita:
Cambio
E então la estamos nós, feito baratas tontas, a mudar de máquina em máquina de exercício em exercício. Aprendendo o verdadeiro valor de 30 segundos. E ele volta a mandar:
Cambio
Um pouco machista, eu diria. Mas o homem ordena e as mulheres obedecem. Como na sociedade em si, reflexionaria o taxista que apanhei outro dia. Sociologias à parte, a voz impõe e nós cambiamos, e vamos cambiando, como se a vida fosse isso. Como se um cambio fosse assim tão fácil.
Cambio
E então enganamo-nos num exercício. Não conseguimos atinar com a coordenação do movimento e a funcionaria baixinha ri-se e diz que não faz mal, que o importante é que nunca pares.
Cambio
E eu mexo-me descordenadamente e penso que esta sala é algo mais que um ginásio. É um filosofia de vida: Se te mexeres sempre, não tardará em chegar o próximo
Cambio