I ante aquel silencio mudo

30.1.15

Foi o nosso filho durante tanto tempo. Seis meses. Talvez mais. Primeiro era só uma idea "o que podíamos fazer era....", "tínhamos que propor....", "sería fixe se...". Conversa de almoço e jantar nesta casa arrumada tão desarrumada.
Um verbo no condicional que se materializou em reuniões e reuniões. Até que houve um dia que nos disseram "sim". Saltámos de felicidade e ao mesmo pensámos: "ui, ui, ui, isto vai dar tanto trabalho". E deu.
Mas era um trabalho nosso. Sem chefes. Sem caras feias. Podíamos não fazer tudo o que criticamos no nosso dia a dia. Não queríamos ser como eles e não fomos.
"¿Hey, queres tomar uma caña esta noite?", "Uf, nao posso, tenho que trabalhar en el docu". E lá fora fazia sol e nós em casa, a trabalhar e trabalhar.
Seis meses. Seis meses e o filho nasceu. Fomos comemorar, brindámos e contámos aos amigos. Mas foi um nascimento discreto. "A estreia será lá para Janeiro", dizíamos.
E lá para janeiro chegou. "Então quando é a projecção?". "É lá para o fim do mês", respondíamos. E lá para o fim do mês, também chegou.
Lá para o fim do mês é amanha e estou em plena campanha de promoção.  Passei de entrevistadora a entrevistada e não sei como reagir. Respondo pensando como faria eu a entrevista. Digo frases consciente de que seriam bons títulos. Proponho formatos de reportagem, ideias para fotografias... "Entrevistar jornalistas é um prazer", dizem-me. Mas eu estou mais cómoda do outro lado.




"I ante aquel silencio mudo", nós resolvemos falar.

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