Fugas e o grande titã

25.6.09

Esteve nove meses na minha barriga, no meu computador, no meu moleskin e a viver em todos os meus pensamentos.
Dormiu na minha mesinha de cabeceira, viajou comigo e se multiplicou em cada vez mais folhas com detalhes vermelhos. Foi motivo de zangas, desilusões, lágrimas e gritos histéricos. Passou por varias provas, por muitos olhos e por críticas cruéis. Tirou-me horas de sono, de descanso e de trabalho.
Até que, por fim, chegou o grande dia. Aquele em que o meu filho sairia a do conforto dos pensamentos e das ideias, e se materializaria em mais um ser neste mundo. Penteei-lhe o cabelo, pus-lhe uma roupa bonita e levei-o à derradeira prova.
“Mas, meu filho, prepara-te, porque a vida não é fácil”, disse-lhe antes que o julgamento final começasse. “Eu prometo que te protejo”, sussurrei bem baixinho, enquanto lhe limpava a remela que lhe tinha ficado da anterior noite não dormida.
Começou a prova. Fizeram-lhe festinhas e elogios. Gabaram a educação que eu lhe tinha dado e os seus lindos olhos verdes, implicaram com aquele cabelo que estava fora do sítio e com uma mancha que havia na sua camisola. Mas as pessoas são bonitas pelas suas imperfeições, pensei para me confortar.
Aplaudiram-no e deram por encerrada a sessão. O meu filho olhou para mim com um ar desiludido: “Mas mamã, não me tinhas dito que a vida era difícil?”
A resposta não tardou nem meio segundo. Porque ali estava ele, o titã dos titãs, o grande chefe das pequenas crianças. Pegou no meu filho e virou-o ao contrário, sacudiu-o, despenteou-lhe o cabelo e roubou-lhe um dos sapatos. Chamou-lhe nomes, bateu-lhe e humilhou-o.
E, nesse momento, o mundo deu um passo atrás, retirou as frases elogiosas e vestiu-se de um olhar de compaixão para com o meu filho que, num minuto, tinha passado de popular a deficiente.
Mas o que o grande titã não esperava era que aquela criança tivesse mãe. Peguei no meu filho, acalmei-lhe o choro, e dei dois passos em frente. Porque aqueles nove meses tinham-nos feito muito mais fortes do que o grande mestre poderia imaginar.
Expliquei-lhe como educar era muito mais do que um exercício estético e mostrei-lhe como uma menina de poucos anos também pode ser uma mãe de verdade. Falei-lhe das horas de choro, dos dias de chuva e das noites sem dormir. E contei-lhe tudo o que tinha aprendido nesses momentos. Respondi-lhe no mesmo tom de superioridade titânica e observei-o enquanto anotava as minhas respostas.
No final o meu filho disse-me: “Obrigado mãe” e eu pedi-lhe que nunca se esquecesse desse dia. O dia em que tínhamos lutado, cara a cara, unha a unha, olhar a olhar, com o grande mestre.
“E vencemos mamã?”, perguntou.
“Talvez não, mas demos-lhe uma lição sobre o que é ser uma família de verdade”, respondi.

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