Em modo bunker

12.10.16

Durante um tempo acreditava que vida era o que acontecia entre acto e entreacto. E nesse espaço que ora junta ora separa, construíamos o que queríamos ser.
Era o que eu pensava.
Agora não.
Do alto da sabedoria dos meus (quase) 30 anos sinto-me circular. E ás vezes acho que o mundo conspira, que o corpo fala, que os ventos dizem. Sou de ciclos e vejo-os chegar com antecedência. Outrora teriam dito que sou bruxa.
Tudo começa com uma borbulha na testa, uma barriga hinchada, uma noite mal dormida. "Foi o jantar de ontem", justifico. Tento enganar(me). E então vem aquele mal corpo. "Vamos tomar uma caña?", perguntam, e eu desculpo-me. Vejo uma gargalhada vizinha com admiração, "sou só eu que estou a sentir?". Não faço planos. Reservo hotéis com tarifas flexíveis e deixo o cartão de crédito na carteira. Fico em modo bunker. Em contingencia. Porque quando o ciclo acaba temos de nos desfazer de tudo. Despir-nos. Comprar novos óculos. Novas roupas. Um novo sorriso.
Nada será como antes e nunca saberemos como teria sido. Mas é das incertezas que nasce o progreso.

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