El pescadito

Isto de ter um diário digital tem o que se lhe diga. Chegas aqui, escreves, desabafas, divertes-te e ris-te com as tuas próprias historias. Das-lhe a publicar e depois vais à tua vida.
Os “problemas” começam quando chegas ao pé do teu grupo de amigos e eles perguntam-te:
- Então como vai tudo em Espanha?
Tu dizes que bem, que estas muito contente e começas a sacar o teu rol de historias engraçadas e divertidas que foste acumulando durante a tua última estadia. São de sucesso garantido, pensas.
- Nem sabes! Outro dia roubaram-me um casaco dentro de uma loja..
Ou
- Acreditas que a principal preocupação das espanholas é a possível proibição de comer presunto durante a gravidez?
Ou, sei lá..
- Outro dia a senhora da padaria chamou-me encalhada.
E é então que eles fazem um sorriso amarelo e respondem:
- Sim, eu sei, eu li no teu blog.
Gera-se um silencio constrangedor. Eles querem ouvir aventuras mas tu, sem os teus trunfos, já não tens a mínima graça, ficas muda, envergonhada e pensas: “Tenho de começar a guardar algumas historias para depois ter o que dizer nestas situações”. E isso é triste, muito triste.
Mas no último sábado atingi um novo cúmulo dentro do que eu gostaria de qualificar como “as formas que o teu blog tem de lixar-te a vida”. Estávamos numa festa e além dos típicos amendoins, os anfitriões tinham decido espalhar pela casa milhares de potinhos de gomas.
Eu fui lá, olhei, respirei fundo e estiquei a mão para tirar umas batatas fritas oleosas e sem sabor. É nesse momento que chega o meu amigo e leitor El Pescadito e diz:
- Viste que têm gomas aqui?
- Sim…
(nao está a ter graça esta conversa)
- E não queres?
(Olhar fulminante)
Dois minutos depois.
- Hei, como estás a conseguir resistir? As gomas estão óptimas! – diz com ar de troça.
(Olhar assassino)
Uma hora e alguns copos mais tarde:
- Marina, Marina! Olha para mim a comer gomas! Mmmmnhami! Nom Nom Nom.
(Olhar tás-aqui-tas-a-levar)
- Ouve lá! Mas qual é o teu problema? – grito-lhe, já em ponto de ebulição.
Então ele aproxima-se e responde com um ar solene:
- 'Tou a fazer isto para ver se saio no teu blog! Falas sempre de milhares de amigos e nunca contaste nada sobre mim. Aposto que esta cena vai para o Detox #6 – confessa o Pescadito.
....
E esta é a história de como o Pescadito conseguiu o meu ódio eterno e um post dedicado a ele no Margem de Erro. E agora, pensando bem, concluo que esta situação lixou-me duplamente, porque também já não vou poder contar isto no meu próximo jantar de amigos. God, I hate my blog!

Detox #5

Ontem, enquanto preparava a minha mudança, descobri que vou precisar de uma mala só para levar as gomas que tenho acumuladas e espalhadas pela casa. Sim, é tortura, mas preciso estar abastecida para o dia em que passe este pesadelo e eu possa come-las todas de seguida até ter uma overdose.
Overdose de gomas? Que cenário paradisiaco!

¡Olé Toro!

Hoje descobri que todos os espanhóis* odeiam o Vicky Cristina Barcelona. Sentem-se defraudados, enganados, distorcidos.
Porque “a Espanha não são homens de camisa de seda vermelha aberta até metade do peito”. Pois não. Porque “em Oviedo não se canta Flamengo”. Pois não. “Muito menos num jardim interior no meio da madrugada”. Tens razão. Porque “um cigano às quatro da manhã em Oviedo assalta-te, não te canta uma Copla”. Assim já é preconceito. Porque “a periferia de Barcelona não tem aquelas casas”. Isso não sei. Porque “quanto tempo vai durar o mito do macho latino?”. Acho que para sempre. “É que só faltava passar um touro preto no meio da rua”. Não esteve longe disso.
E quando a conversa acabou eu tentei explicar que o filme foi feito para reforçar a ideia que se tem de Espanha lá fora. Tentei mostrar-lhes o lado positivo.
- Já viram a vossa sorte? Vocês chateiam-se porque o estereotipo à volta do vosso país é um macho latino irresistível, um concerto ao ar livre e um jantar a luz de velas numa casa com um grande jardim.
- Mas isso é horrível, porque não é verdade – protestaram
- Imaginem lá se tivessem encomendado ao Woody Allen um filme sobre Portugal...
Risota geral. Algumas piadas de circunstância e então eu sugeri o guião:
- Seria a história de uma velha peluda de bigode que andaria sempre com uma toalha enrolada à cabeça e morreria engasgada com uma espinha de bacalhau.
- Faltou dizer que se apaixonaria pelo Cristiano Ronaldo - acrescentaram.
Exacto.

*¡Alerta margem de erro!

Uma questão de dicionário

O problema das pessoas preconceituosas é que elas não têm um bom dicionário. Todos os narigudos são inteligentes ou, pelo menos, geniosos, cheios de artimanhas. Os que têm dentes tortos são sensíveis, mas nem todo o gordinho é engraçado, aliás, raramente são. As pessoas com alergia verdadeira são introvertidas. Elas calam, observam, esperam o timing e soltam sempre a melhor piada da noite. Mas isso é óbvio.
Todos com pneuzinho salientes partilham de uma relação especial, não melhor ou pior, com o sexo. Os lábios carnudos, como sería de esperar, não gostam de cerveja, e, não me perguntem porquê, mas o gago é sempre prolixo. Não é preciso ser muito perspicaz para saber que os dos dedos compridos riem alto e que as orelhas grandes… Bem, esquece, melhor não entrar por aí.
Sobre aqueles ossinhos da anca, quando salientes, não sei, mas está em projecto. A barriga da Cameron Diaz é coisa de gente chata, podem ver. Mulheres com mamas grandes são simpáticas, assim como homens com pés peludos.
A sério. Pensem nisso.

Detox #4

Resumo deste fim-de-semana-com-amigos-ca-em-casa:

Na paragem de autocarro.
- Ai, quero comprar uma coisa, mas não vou dizer, para não te sentires mal - comenta ele
- Diz lá, eu não me importo - prevendo o pior
- Gomas de amoras
( silencio - cara de nojo/raiva/desprezo/ira/inveja dissimulada com um sorriso)
- Claro que não faz mal, compra lá! - cínica.

No Starbucks a fugir do frio
- Queria um chocolate quente e... Marina, o que queres?
- Nada, obrigada - sorriso cínico, parte 2
- Então, está bom? - digo, para quebrar o gelo.
- `Tá optimo, de certeza que não queres?
(olhar fulminante...)
- Aiii, desculpaaaaaaaaaaa - diz ele.
(Aviso: As desculpas não me vale de nada. Bem... pelo menos até ao dia em que elas se puderem dar em forma de injeçoes açúcar directamente na veia)

Depois de uma noitada:
- `Tou cansada, quero gomas - confesso.
- Nao digas isso que só te torturas mais.
- Gomas, gomas, gomas. QUERO GOMAS!!!! Muitas, coloridas, deliciosas, acidas e docinhas...
- Se quiseres podes comer e dizemos que eu te obriguei!
(Oooooraaaa, finalmente alguém teve uma boa ideia)

Em casa, a comer Maltisers:
-Hmmm, mnhamiiii, queres?
(sorriso forçado, olhar fulminante)
- Aihh, desculpaaaaaaaaaaa
( Já disse que não desculpo!)

No restaurante a jantar:
- Querem sobremesas? - pergunta o empregado
- Não, obrigada - apresso-me - Bem, quer dizer... Vocês querem?
- O que há? - pergunta o meu amigo
- Brownie, Crepe com doce de leite e cheesecake.
(boca a salivar e estômago a gritar por salvação).
Chega o crepe e o amigo diz:
- Mas é muito, comam vocês também.
- Marina, não vais ajudar?
(Silencio. Olhar. Silencio.)
- Está bom?
(Porque é que continuo a fazer estas perguntas educadas?)
- Diria que está demasiado doce - diz ele, e antes que os meus olhos se transformassem em chamas, acrescenta - Ai!! Desculpaaaaa.

Concluiria, portanto, que vai tudo bem. O sacrifício está a correr lindamente. Não me está a custar nada. Nadica de nada.

Detox #3

Tenho um amigo cá em casa de visita. Ontem à noite ele vira-se para mim comenta:
- Há uma coisa que não percebo - diz, preocupado - Como é que é suposto passares 40 dias sem comer doces se tens gomas espalhadas por todos os cantos da tua casa e do teu quarto?
Finalmente alguém percebe o meu problema. Mas aprendi que é melhor não as por no lixo, porque já ficou provado que elas ressuscitarão e assombrar-nos-ão o resto dos nossos dias. As gomas, esses espíritos malignos encarnados pelo diabo.

Detox #2

Ontem aquele ursinho verde e açucarado (delicioso, saboroso, apetitoso) apareceu no chão do meu escritório, do lado de fora da papeleira. Mandei um berro e os meus amigos vieram ver o que se passava. Disse-lhes que estava a ter alucinações e que a goma que tinha posto no lixo há três dias estava agora a puxar as minhas calças e gritar com um voz fininha "come-meeeeeeeeeeeeeeeee". Eles passaram-me a mão na cabeça e disseram com uma voz solidaria: "Não faz mal, marina, é tudo parte do processo".

O dia em que o telefone tocou

Passamos a vida à espera que o telefone toque. Há aquela paixão furtiva que secretamente desejamos que saiba interpretar os nossos olhares silenciosos. O menino que conhecemos ontem à noite no bar. O amigo saudoso e aquele que traz uma voz de conforto que nos aconchega nas noites friorentas. Há o trabalho que sempre sonhámos e o que nos dará uma viagem ao Japão. Não podemos esquecer do “triiiim” que vem com um convite para sexta à noite e o que chega com gritos histéricos de felicidade.
Passamos os dias a olhar para o maldito aparelho e a suplicar: “Toca, toca, toca”. Fazemos chantagem, aprendemos magia, mudamos de música, pomo-lo a vibrar, criamos tiques nervosos… Levamo-lo para a mesa de jantar e recebemos raspanetes dos país, dormimos com ele debaixo da almofada e voltam a ralhar-nos, guardamo-lo no bolso e dizem que no futuro seremos inférteis. Mas nós não nos importamos e continuamos à espera.
Ate que um dia o telefone toca.
E a nossa vida muda.

Detox #1

Há dias que simplesmente não são adequados e esta, sem dúvida, não foi a melhor data para começar a minha desintoxicação. A cada situação de stress, cada felicidade fortuita e cada pausa no trabalho. A cada comida demasiado condimentada, cada celebração e cada pensamento"vou ali atirar-me da janela e já venho". Em cada um desses momentos apenas duas ideias lutavam na minha cabeça para ganhar protagonismo: o "porque é que eu me meti nisto?" e o "tinha de ser logo hoje".
No fim, quem ganhou foi sempre a frustração. Para fechar o dia com chave de ouro encontrei um ursinho verde e açucarado (delicioso, saboroso, apetitoso) perdido na minha mala. Peguei nele e pu-lo no lixo. Agora vou arder para sempre nas chamas do inferno.

As grávidas e o Jamón

A irmã de uma amiga do trabalho está grávida. Hoje perguntei-lhe como é que ela (a irmã) se estava a aguentar.
- Está óptima!!! Passa os dias a cantar - diz a minha amiga.
- Ah, que sorte! - comento eu.
E antes que eu tenha tempo para dizer mais alguma coisa, passa o meu chefe por nós e pergunta, com o ar mais natural do mundo:
- E deixam-na comer jamón*?
Ao que a outra responde, também no auge da sua naturalidade.
- Sim, teve sorte com isso! Parece que é tolerante.
- Ainda bem! - diz o meu chefe.
Eu estava alí, só a olhar, estupefacta com o absurdo da situação e, sem conseguir conter-me, saí-me com um "Vocês têm noção do quão surreal é esta conversa?". A minha amiga, com um ar compreensivo explica-me:
- Não, Marina, é que sabes.. algumas grávidas desenvolvem uma intolerância a....
- EU SEI! - grito inconformada - o que não percebo é como é que não comer jamón pode ser a coisa que mais vos preocupa numa gravidez.
- Como assim? - gritam os dois em coro.
- Nove meses sem jamón? - dizem com um ar assustado. E então ele conta da mãe que mesmo com a proibição comia o dito presunto às escondidas. E ela acena, solidariza-se com a causa. Este é, para eles, o principal problema de uma gravidez.
- Eu passei 20 anos sem comer jamón.... - digo, delirando com a conversa.
E então eles voltam a dizer em coro, mas desta vez com um ar de dar pena:
- Coitadinha...
À hora do almoço contaram esta historia aos outros colegas que passaram o resto da refeição a tentar imaginar como seria a vida sem jamón.
- Melhor nem nascer - concluíram.

* Jamón = presunto espanhol

Subscribe