Tudo menos as unhas

No trabalho chamam-me "Marina sorriso".
Porque quando nos disseram que sairíamos à rua com uma câmara no ombro, eu soltei uma gargalhada. Quando a minha companheira abandonou-me a meio da minha primeira montagem, eu respirei fundo, sorri e trabalhei até de madrugada. Quando me contaram da produção, do carro, do computador e dos turnos, eu não me importei, a serio que não!
Mas hoje o meu chefe disse-me:
- Ah, e esse verniz vermelho tem de sair.
Eu ri-me, claro, e comentei algo como: "Ha-ha-ha que boa piada, os homens não percebem nada de moda"
E então ele respondeu, meio serio, meio a brincar:
- Não quero nada que distraia a atenção do espectador.
(silêncio) A coisa era mais seria do que eu esperava.
Então senti que era momento de apelar.
Tentei explicar que o espectador adoraria ver unhas bonitas na televisão, não funcionou. Que eram uma marca da minha personalidade, ele não caiu nessa. Que queria conversar com a nossa estilista, ele disse que era o chefe dela. Que iria queixar-me ao sindicato, ele lembrou-me que eu não estava inscrita.
Transtornada, e vendo que não havia como demove-lo, fui para casa, glup, peguei na acetona, glup, e no verniz transparente, glup glup, e pus mãos à obra. Quando acabei o serviço mandei uma mensagem ao meu chefe: "A antiga Marina morreu, favor enviar o seu corpo de unhas pintadas para a sua residência portuguesa".
Ele riu-se. Mas eu não.
Estou de luto. E nem sequer posso ter as unhas pintadas de preto.

Capturaste? Renderizaste?

VTR, colas, P2 e Edius. Captura, planos e paneo. Balanço de brancos, filtros ND, ganacia e shutter.
Apresento-vos os meus novos amigos. Os responsáveis pelos meus mais recentes pesadelos e tremeliques nas mãos. Chegaram meio áridos, meio com cara de leite azedo. Eles e os quilos que se depositaram nos nossos ombros, !ai, as minhas dores de costas!, eles e o seu manual. Mas são meninos de personalidade forte. Rapidamente criaram um espacinho nas nossas conversas, nas nossas preocupações e prioridades. E, sem que nos déssemos conta, estabeleceram-se no top no nosso vocabulário. Capturaste? Renderizaste? Usaste filtros ou ganâncias? Não!, não faças paneo!
E, sem que ninguém se desse conta, ou assinasse uma carta de autorização, a nossa vida mudou. Dou por mim a sonhar acordada com os dias de gritaria na redacção, com os stresses do “não vai dar tempo”, com as vitorias e derrotas, o “estamos no ar” definitivo. Olho para trás e penso: “Como consegui viver tanto tempo sem isto?”.

Detox #10

Coloquei todas as minhas gomas acumuladas (são muitas) num saco e pus o dito cujo na ultima prateleira do meu armário da cozinha.
Ás vezes, quando não tenho nada para fazer, abro o armário e fico ali, minutos sem fio, olhando. Só olhando.
O que o os olhos não vêm, o coração não sente.
Gomas, I miss you...

Detox #9

Hoje, como seria de se esperar, desmaiei no meio da minha primeiríssima reportagem para a televisão. Quando voltei ao mundo dos vivos, uma amiga disse-me:
- Marina, estás bem? Que te passou?
- Acho que tive uma quebra de tensão - respondi, já por inércia.
É nesse momento que ela põe uma cara de pânico e começa a gritar:
- Açúcar, açúcar, tragam açúcar que a minha amiga desmaiou!!
Então eu, de repente, no meio da minha zonzice, apercebo-me do problema em que me iria meter e digo, com o que me restava de forças:
- Não, por favor, açúcar, não. (pausa para respirar fundo e pensar numa solução rápida). Melhor uma coca-cola.
...
Isto já se está a tornar preocupante.

"Ah não, isso é impossível!"

Talvez seja eu e essa minha obsessão de que “aprender é crescer”. Talvez seja eu e essa minha sede insaciável de desafios e aventura. Talvez eu seja apenas muito nova e não consiga medir as consequências. Talvez, quem sabe.
Mas a verdade é que não consigo entender quem leva a vida de outra forma.
Então chegas lá, tu, toda confiante e cheia de vontade. Chegas lá e dão-te a volta aos planos. Parece que além de A, teremos também de fazer B. “Como assim B?” dizemos num primeiro momento. “Nunca aprendemos a fazer isso, não, nunca seremos capazes”. E dizem-nos que sim, que há que fazer, que não há alternativa.
E então, sei lá, pode ser uma coisa minha, mas eu, perante tal situação, penso:
- Bem, ok. Toca a concentrar-se, estudar, aproveitar todos os minutos do dia, que fazer B não deve ser tão complicado.
Pode ser optimismo em demasia, mas verdade é que nesse momento até me chega por passar pela cabeça: “Ah, que bom!, vou aprender a fazer outra coisa nova”.
Agora o que eu não posso entender são essas pessoas rancias, pessimistas e apegadas que decidem investir todo o seu tempo e energia restantes a criticar, protestar, queixar-se. Dizem que não são capazes, que assim não pode ser. Perguntam a opinião de fulano, cicrano e beltrano. Querem ouvir mais reproches, mais lamentos, mais revolta. Querem sentir a sua dor partilhada por todos. Que todos lhes dêem razão. Que sim, que é muito difícil, demasiado complexo. Que será impossível fazê-lo bem. E acho que isso, de alguma maneira, os conforta.
Eu se calhar sou passiva demais, optimista demais, submissa demais. Mas é que se me dizem “ou sim, ou sim” eu opto sempre pelo sim bem feito e empenho todas as minhas energias em consegui-lo. No entanto, isso deve ser um problema meu. É que só pode.

Detox #8

Ontem guiei durante seis horas seguidas. Como não podia partilhar essa grande viagem com as minhas companheiras "gominolas", optei por comprar batatas fritas.
Cheguei ao meu destino com dores de barriga.

Então adeus

Hoje é um dia triste. Um dia triste que precederá muitos dias felizes, espero, acredito. Mas isso agora não importa. Não lhe tiremos a importância a este momento.
O dia do adeus, até já, abraços apertados e chocolates que não posso comer. O dia dos presentes, da boa-sorte, do “tenho a certeza que tudo vai dar certo”. O dia da dúvida, do aperto no peito e da lágrima engolida com um sorbo de cerveja. Uma manhã de olhos inchados, sussurros e momentos de meditação debaixo dos lençóis.
O dia do “último”. O último almoço, a última pausa a meio da manha, a última discussão com actores impertinentes, a última queixinha, a última vez que dizemos e gritamos a quatro ventos “com o dinheiro que ganha, devia lamber o chão em que pisamos”. A última piada que vai para a parede, a última “tu estás gorda, cala-te”. O último dia sentada nesta cadeira tão minha.
Então adeus. Adeus computador barulhento, telemóvel que não vem factura no fim do mês, canetas, papeis, apontamentos e arquivos. Adeus recortes de jornais e actualizações de pagina web. Adeus entrevistas recusadas e outras pedinchadas. Adeus campanhas de promoção, ante-estreia e conferencias de imprensa.
“Se te arrependeres, volta”, dizem-me e eu digo que sim. Mas no fundo todos sabemos que este é o último dia. Depois de hoje: bye bye, kaput, até uma próxima vida.

Detox #7

Não sei se já comentei aqui, mas em Espanha existe um “estranho” hábito (ainda não decidi se acho estranho ou genial) de levar doces para o trabalho sempre que algo de bom acontece na nossa vida.
Sim, eu disse doces.
Então ontem, como quem não quer a coisa, perguntei:
- E se eu amanhã ao invés de levar doces, levasse, sei lá, folhados de salsicha?
- Folhados de salsicha??? – responderam-me com aquela cara do “marina-és-uma-pessoa-estranha”
- Sim… queria saber se posso levar coisas salgadas ao invés de doces. Assim pelo menos teríamos uma comemoração mais original, ou não? - achei que valia a pena tentar...
(Eles olharam-se entre si, riram-se, deram-me uma palmadinha nas costas e disseram:)
- Boa tentativa, cara amiga..
Foi então que hoje, quando cheguei ao trabalho com uma gigante caixa de chocolates, os meus companheiros, esses maldosos, perguntaram-me instantaneamente com um ar malicioso:
- De certeza que não queres um?
E eu respondi, convicta, enquanto piscava um olho:
- Não, obrigada. É que não gosto muito de chocolates. Como sabem, sou mais uma rapariga de gomas.
Quem é a espertalhona agora, quem?

Detox #6

Sinto que desde o inicio da minha desintoxicação já passei por varias fases:
1. As mãos tremem e o corpo grita por açúcar
2. Revolta: "Mas porque é que me meti nisto?"
3. Odio contra todos os GLUTÕES do mundo
4. Resignação. "Queres bolo?". Cara de profunda tristeza: "Não posso..."
5. Tentativa de dar a volta ao sistema. "E se comer gomas light?"

Tenho a sensação que este processo será cíclico e que dentro de pouco tempo as minhas mãos começarão outra vez a tremer.
Preparem-se.

El pescadito

Isto de ter um diário digital tem o que se lhe diga. Chegas aqui, escreves, desabafas, divertes-te e ris-te com as tuas próprias historias. Das-lhe a publicar e depois vais à tua vida.
Os “problemas” começam quando chegas ao pé do teu grupo de amigos e eles perguntam-te:
- Então como vai tudo em Espanha?
Tu dizes que bem, que estas muito contente e começas a sacar o teu rol de historias engraçadas e divertidas que foste acumulando durante a tua última estadia. São de sucesso garantido, pensas.
- Nem sabes! Outro dia roubaram-me um casaco dentro de uma loja..
Ou
- Acreditas que a principal preocupação das espanholas é a possível proibição de comer presunto durante a gravidez?
Ou, sei lá..
- Outro dia a senhora da padaria chamou-me encalhada.
E é então que eles fazem um sorriso amarelo e respondem:
- Sim, eu sei, eu li no teu blog.
Gera-se um silencio constrangedor. Eles querem ouvir aventuras mas tu, sem os teus trunfos, já não tens a mínima graça, ficas muda, envergonhada e pensas: “Tenho de começar a guardar algumas historias para depois ter o que dizer nestas situações”. E isso é triste, muito triste.
Mas no último sábado atingi um novo cúmulo dentro do que eu gostaria de qualificar como “as formas que o teu blog tem de lixar-te a vida”. Estávamos numa festa e além dos típicos amendoins, os anfitriões tinham decido espalhar pela casa milhares de potinhos de gomas.
Eu fui lá, olhei, respirei fundo e estiquei a mão para tirar umas batatas fritas oleosas e sem sabor. É nesse momento que chega o meu amigo e leitor El Pescadito e diz:
- Viste que têm gomas aqui?
- Sim…
(nao está a ter graça esta conversa)
- E não queres?
(Olhar fulminante)
Dois minutos depois.
- Hei, como estás a conseguir resistir? As gomas estão óptimas! – diz com ar de troça.
(Olhar assassino)
Uma hora e alguns copos mais tarde:
- Marina, Marina! Olha para mim a comer gomas! Mmmmnhami! Nom Nom Nom.
(Olhar tás-aqui-tas-a-levar)
- Ouve lá! Mas qual é o teu problema? – grito-lhe, já em ponto de ebulição.
Então ele aproxima-se e responde com um ar solene:
- 'Tou a fazer isto para ver se saio no teu blog! Falas sempre de milhares de amigos e nunca contaste nada sobre mim. Aposto que esta cena vai para o Detox #6 – confessa o Pescadito.
....
E esta é a história de como o Pescadito conseguiu o meu ódio eterno e um post dedicado a ele no Margem de Erro. E agora, pensando bem, concluo que esta situação lixou-me duplamente, porque também já não vou poder contar isto no meu próximo jantar de amigos. God, I hate my blog!

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