A política

Antes de ser jornalista eu era uma cidadã muito mais tranquila. Corrijo. Antes de escrever sobre politica eu era uma cidadã muito mais mais pura, mais normal. Como vocês sabem a minha condição de saltimbanco nunca me permitiu exercer o meu direito de voto, e agora isso de alguma forma me alivia.
Passo os dias a analisar os políticos, a criticar as suas palavras, a descobrir e a difundir as suas jogadas. Depois conheço-os e a coisa piora. Vejo o assessor de imagem, a mudança de discurso quando a luz vermelha diz que estamos em “on”. E então perguntamos-lhes sobre tudo aquilo que temos estado a falar. O dinheiro ilegítimo, as sabotagens e as trafulhices e eles não respondem. Nunca respondem. Depois há as jogadas e as alianças indevidas. As historias de bastidores, as amantes, os colegas e os inimigos. E então o outro diria. “São todos iguais”. Não, não são todos iguais, mas todos têm aquele defeitozinho imperdoável, aquela decisão inadmissível, aquela resposta que nunca deveria ter sido assim. E há medida que vão passando os dias, e vou me vou afundando neste mar sem volta atrás, lembro-me dos tempos em que era uma cidadã pura e acreditava verdadeiramente na politica. Agora, agradeço ao destino a minha situação de cidadã do mundo. Porque se tivesse que votar, que escolher um, dormiria muito mal durante a noite.

Já é Natal!

O Natal chegou ao nº13 da Av. Gran Canaria.

El flequillo

Sou amiga de uma das cabeleireiras da tevê. Andávamos há uns dias a comentar o lamentável estado do meu cabelo. Sem corte, sem graça, etc e tal. Então uma tarde (depois de muitos desencontros) ela perguntou se eu queria que me cortasse a franja. Neste ponto é preciso sublinhar que "franja" para mim é um pedaço de cabelo mais curto, penteado para o lado esquerdo e que tem como função tapar as minhas orelhas (dumbas?). Então ela diz-me de tesoura na mão:
- Marina, alguma vez já tiveste franja? Franja de verdade?
Eu respondo que não e no momento que lhe ia explicar o "probleminha" e a necessidade de tapar as minhas Dumbas...
ZAZ!
- Agora já tens! - Diz ela, orgulhosa do seu trabalho.
E essa é a historia de como eu ganhei um "flequillo" e como, depois de anos de auto-enganação, as pessoas agora comentam: "Ah, nunca tinha reparado que tinhas as orelhas grandes". Inspira, expira, inspira, expira.

Cotorreando #4 Dumbas

Em Coruño (a lingua/calão usado pelos jovens corunheses)orelhas diz-se "Dumbas".
Morri.

Cotorreando #3 "El Balado baladí"

Tinha de partilhar isto convosco. O rapaz que trabalha comigo chama-se Balado. Ontém, já num atrofio mental de tanto trabalho, chamei-o "baladí" (ver Cotorreando#2) e, acto seguido, tive um ataque de riso descontrolado. Só dizia "El Balado baladí!" e gargalhava mais e mais. A minhas piadas nerds estão a ficar preocupante. Por favor, ajudem-me.

Cotorreando #2 "La impudicia del debate baladí"

Tenho um problema, e é que eu trabalho num programa de debate de actualidade, que é como quem diz, um programa de, basicamente, política e economia. O problema não é o programa em si, nem os temas que trata (que eu amo os dois de paixão), o problema, repito, é que vivo rodeada de intelectuais de primeira linha, de argumentações rebuscadas e, claro, uma linguagem não propriamente quotidiana.
E então ontem um convidado queria dizer que o político xis tinha falta de vergonha da cara. Mas não! Que linguagem mais comum, onde já se viu dizer”desavergonhado” numa tertúlia politica. E é então que aprendo uma palavra nova para o meu dicionário eloquente: impudicia. Minutos mais tarde, vem o outro e responde que esse e um assunto insignificante, mas, claro, não podia ficar atrás do anterior, então vai lá e diz que o tema do nosso debate é “baladí”. “La impudicia del debate baladí”

A internet

Tenho uma amiga que não tem internet em casa. Só tenho uma amiga, de todos os meus amigos que espalhados pelo mundo, que não tem internet em casa. E isso faz dela um bichinho raro, um ratinho de laboratório que eu observo com especial atenção. Sabia que ela entreva ao meio-dia no trabalho. (Eu entro as três, que fique bem claro). Então outro dia conversando com ela, falava-me da rotina que tem pelas manhãs. Rotina tipo acordar, tomar banho, comer o pequeno-almoço e ir trabalhar, pensei. Mas não. Parece que ela acorda todos os dias às oito da manha. Toma o pequeno-almoço, vai ao ginásio, vai ao supermercado e combina com o namorado de ir tomar um café. Volta para casa, toma banho, faz uma sandes para o lanche, vai para o trabalho (que está a 20 minutos da casa dela) e ali chega, pontualmente, ao meio-dia. Só para terem um termo de comparação, aqui vai a minha rotina matinal de forma telegráfica: acordo às onze. Ligo o computador. Saio da cama as 12.30. Pequeno-almoço e banho, já é uma e meia. Vejo as notícias e para o trabalho. Agora penso que se calhar o meu problema não é a preguiça, é a internet. Esse bichinho maldoso.

Cotorreando #1

Inauguro hoje uma nova seccão no MargemDeErro. Chama-se Cotorreando e aqui partilharei com vocês todas as palavras novas que va aprendendo neste ¿apaixonante? idioma. A primeira, cómo no, tinha de ser Cotorrear, ou seja, Tagarelar. Porque é falando que se aprende a falar.

Ciclogenese explosiva

Na Galiza chove. Chove muito. Na Galiza há borrascas, ciclogeneses explosivas, granizo e, recentemente, tornados. É por isso que eu nunca tive um guarda-chuva na Galiza. Não adianta, não resiste. O seu tempo de vida é de mais ou menos 0,5 segundos. É também por isso que eu ontem comprei umas galochas (bem, na verdade são umas botas de equitação de plástico… Mas digamos que para mim são galochas), tirei os casacos compridos e gorros do armário. Agora já não vou andar por ai com pés molhados, cabelo empapado e roupa encharcada. Agora já estou preparada. Que venha o inverno!

"Isto"

Já ouvi muitas vezes e tenho a certeza que continuarei a escutar com certa frequência a pergunta: “Porquê a Corunha? Porquê a Galiza?” Vi muitas caras de desilusão quando troquei Madrid e um trabalho com 4 milhões de espectadores, pela Galiza e as audiências de 300 mil. Desaprovaram, disseram-me que não fosse, torceram-me o nariz.
Mas eu vim. Mesmo aqui perguntam-me chocados como fui capaz de trocar Lisboa por “isto”. Então passo a contar o que é “isto” e porque é que “isto” me faz tão feliz.
Vivo a 10 minutos da praia, 5 minutos do ginásio, 0,5 minutos do supermercado, 0,7 minutos do banco. Vivo a 1 minuto do centro comercial, do cinema e da esplanada para tomar uma cerveja numa tarde solarenga. Tomo o pequeno-almoço no bar da esquina, onde leio gratuitamente os jornais locais e nacionais. Todos os meus amigos vivem no máximo a 15 minutos da minha casa (não há distancias maiores que esta na minha cidade). Trabalho com política e economia e todos os dias tenho um desafio intelectual maior que o anterior. Quando chega o fim de semana entramos no nosso modo de ferias. Passeamos pelo paredão e pelo centro da cidade. Comemos churros, gelados e coisas gordas. Queremos lá saber se isso engorda. Fazemos almoços caseiros, vamos a restaurantes de moda e saímos à noite. Saímos “até à morte” como costumamos dizer. E quando o sol nasce voltamos para casa, a pé, fechamos as persianas e dormimos até quando nos apetecer. Porque “isto” é a minha vida. Sem satisfações que dar, problemas maiores que resolver, grandes dramas, obrigações ou stresses constantes. Se calhar um dia farto-me, deixo tudo isto e vou viver para Tokio, mas até lá, parem de me perguntar o que estou a fazer neste fim do mundo. Porque eu contunuarei a dar sempre a mesma resposta: "Isto" é o meu pequeno paraíso.

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