Algo que te faça feliz

"Haz lo que sea pero que te haga feliz", me dizem. E eu paro.
Porque há poucos dias, por exemplo, descobri que o surf me faz feliz.
O surf? Quem diria!
Juntei-o então à escrita, às viagens, à cozinha, aos meus cremes naturais e à leitura.
Faz-me feliz tomar chá quando o frio é solarengo, fazer risotto de abóbora com a minha mãe, adormecer no sofá no domingo à tarde. Sou feliz quando vou ao cinema, quando como gomas e quando rego as minhas plantas. Sou feliz comendo pastel da feira com a Nonna, quando ouço a rádio de manhã, quando leio uma reportagem bem escrita quando jogo "buraco" com a Vovó Leda ou quando durmo de conchinha.
Mas há coisas felizes que dão dinheiro?, pergunto.
Porque o meu professor de surf queixa-se do hombro e dos alumos que não se esforçam - tento ignorar a referência. As cafeterias agora vendem tapas de fritura. As lojas de gomas dão caries nos dentes. Os jornalistas já não têm tempo para escrever bem e os feirantes queixam-se da sua vida de  saltimbancos. A minha mãe vive longe da Nonna. A casa da Nonna está a mais de uma hora da Vovó Leda e as três estão a muitos, muitos, muitos kilómetros da minha casa. A minha casa faz-me feliz porque não é trabalho (ou não será assim?) e eu meu trabalho não me faz feliz porque se chama trabalho (ou será que não?).
Sempre que alguém diz que é feliz no seu trabalho, eu penso: "mentes". Não és feliz quando o teu chefe te grita, nem quando não recebes o suficiente. Não és feliz quando tens de trabalhar no sábado e no domingo à tarde, quando o despertador toca às 7 da manhã. Mentes. Ou mentes ou eu estou amargada. Ou mentes ou eu preciso encontrar o que me faz feliz.
Desesperadamente.


Too much

O que tem eu não gosto, o que eu gosto não tem. O que eu quero é simples demais e o que o mundo quer precisa de mais simplicidade. Passo os dias com cara de enjoo. "Esse é lindo", me dizem, e eu respondo "é horrível". Sou um antónimo personificado. Preciso de mais brilho, mais decote, mais longo, mais justo. E eu quero menos. Sempre menos.
"Sou chata", justifico. E provo outra renda, outra lantejoula. "É feio", digo, para abafar todos os suspiros. Porque aqui é assim. Perguntam o teu nome mas na verdade só te chamam de "querida", às vezes, de "amor".
- Prova esse, amor, 'tá saindo muito.
- Não gosto, não.
- Nossa... mas é tão bonito.
- Não acho bonito, acho feio. Muito feio.
- Que nada... Está na moda.
Eu já nem respondo. Fecho a cortina. Obrigada e adeus.
"Quer um saltinho, querida?". Não. Não gosto de salto. Não vou de salto. Caras de choque, de desilusão. Porque você sabe, né? Madrinha sem longo não é madrinha. Longo sem salto não é longo. Sapato sem salto não é sapato. E então, eu não sou ninguém. Conclusão lógica.
No fundo tudo é uma questão de opinião. E a minha, claro, é a que está certa. "Sou simples", explico ao entrar na loja. E me encho de orgulho.
Simples é o que eu sempre quis ser.

Lembra-te

Convivo à demasiado tempo com a minha memória de peixe.
Talvez por isso escrevo.
Para não esquecer aquele dia em que cheguei a uma aldeia hostil. Viciados em opio, lixo, ruas de barro e um hotel sem internet. Desconectada do mundo, sem vistas bonitas nem companhia para passar o tempo.
Fui passear. Objectivo: almoço. O primeiro restaurante era sujo e escuro, o segundo, também. Mas foi então que lá ao fundo, na sombra, entre o arroz frito e a Beerlao vi o que parecían ser dois olhos redondos. Duas peles brancas. Duas línguas com letras conhecidas. Westerns?
Aproximei-me com cara de esperança. "Olá", disse no meu melhor inglês, "a comida aquí é boa?", perguntei sem me importar com a resposta. Eles já tinha esvaziado o prato.
O próximo passo era o ataque. "Posso sentar-me com vocês?", propus. "Sim, mas acabamos agora mesmo de comer", disseram. E eu retruquei, enquanto puxava uma cadeira: "Não há problema, eu como rápido".
Passámos a tarde juntos. Até trocámos números de telefone.
Viajar sozinha é isto. Fazer amigos à força. Não ter vergonha. Falar, partilhar e ser, porque não, um pouco egoísta.
Egoísta como naquele dia em que recusei viajar com uma rapariga só porque ela mencionou ter poupado 50.000 euros para esta viagem de 6 meses. Fiz-lhe um adeus com a mão e com um sorriso disse-lhe "see you around". Ela ficou com cara de pendurada. E eu segui o meu caminho com os meus 20 euros diarios.
Viajar sozinha é escolher. Como isso que se dizem dos trabalhadores por conta própria: "fazem o seu horario". Quando troto o mundo sem partner acordo às 6 da manhã e vou para a cama às 9.30. "Fica mais um bocado", pedem. E eu respondo "não". Um não, pela primeira vez, sem remorsos, sem dúvidas, sem "e se...". Não porque não me apetece, porque a viagem é minha e eu faço o que eu quiser.
Um não tão (prazerosamente) egoista.

Voltar

Voltar é dormir de conchinha, é ter chave de casa e um edredon da Minnie no sofá. Voltar é ser recebida com flores, sol, balões e beijos. Não queria voltar mas voltei e bem que gostei.
Gostei de ter um armario cheio, duas escovas de dente e uma parafernália de cremes para o cabelo. Gostei de voltar ao supermercado e comprar comida de verdade.
Porque voltar para casa é cozinhar, ler as noticias, ouvir vozes familiares na radio. Queixar-se do tempo. E ter tempo. Em casa os segundos passam a outra velocidade. Não há um horario para o breakfast, não há pressa para reservar o autocarro, não há chaves na porta do hostel, nem o happy hour das 7 às 9. Aqui a cerveja é quando eu quiser. 
Estar em casa significa ter uma bicicleta. Aulas de italiano e um quarto que faz de ginásio. É sinónimo de ter amigos que duram mais de uma semana. As caras repetem-se uma e outra vez.
A casa cheira a nós e não sentimos cheiro. A cama está amoldada ao nosso corpo. A rotina integra-se com rapidez. As manias retornam e os pensamentos também. 
Voltar a casa é achar inaceitável dormir com baratas, tomar banho de agua fria, ir à praia sem depilação. Quem faz essas coisas? Hoje paguei 20 euros num almoço. Há uma semana paguei 1 e achei caro.
Naquele mundo acordava às seis de manha, neste, faço um esforço para não adormecer antes da uma. 
Voltar é bom o problema é esquecer que fui. 

Eles

A Silvia e o Mauro. O Mike e a Mary. A Liz e o Rô. A Brailey contando do seu trauma da Tansmania. A Rose comendo arroz branco e Coca Cola. A Daisy e o Richard. Ele, com medo de moscas, ela, que depois de conhecer a Mongolia deixou a depilação. A Cris, que abandonou a crise espanhola e pôs a mochila às costas e a Ottavia que reclamava, protestava e criticava mas, no fundo, tinha um coração mole. A Luisa e a sua risada tímida e comentários ingénuos. 


A Vivu, que foi entrevistada mas também amiga. O Henry, a Asha e o Volker que me fizeram sentir em casa, rir até ter lagrimas nos olhos, beber demasiada cerveja, participar em dramas amorosos e considera-los "amigos de verdade". A Rachelle, o Scot, o Harrison, a Amelie, o Tobin e o Marcos que conseguiram que eu acreditasse que outro tipo de familia é possível. 


A Paloma e o Sergio. Outras vítimas da crise com quem partilhei viagem, cervejas e confidencias com selo espanhol. As galesas de quem não decorei o nome. Os alemães do autocarro que não falavam ingles. A Caroline, medica, e com medo da street food; as argentinas peronistas e os Oscar. Foi tão bom reencontra-lo. O Daniel e os seus whatsapps de engate. O Andres, tão inseguro mas que se despia em público com naturalidade. O Chris e a Lee. "Vaya 3", diríamos em España. Un americano com ataques de ansiedade, uma teenager "demasiado madura para a sua idade" e eu. Bombastico.



Depois chegou o grupo do centro. A Detta e o Iupe: o casal zen. Deles invejei a independencia e a calma. Fiz uma nota mental para tentar imita-los. O Jelte e a Lea que entraram rapidamente para lista de favoritos. Com ele viajei de moto, saltei em cascadas selvagens, comi demasiada "passion fruit" e rompi um dos 5 preceitos. "Fazemos só quatro e meio que uma cerveja não faz mal a ninguém", dissemos.



Depois vieron o Luke e a Nina. Ele tão francês, tão olhos azuis, tão coração partido. Ela, que virou amiga e companheira de motorbike, de templos vazios, vistas de perder o fôlego, regateios e todos os night markets que existiam à face da terra. 
E chegou a Birmania e com ela a Sarah e a chuva de Bagan. Descobri o Pedro e recordei como Portugal sempre será "casa".  Deixei-lhe a Emma e o japonês. Ela, londrina do mundo das finanças farta de computadores. Ele... se conseguíssemos entendê-lo poderia contar-vos algo.
Foi então que apareceu o Pablo. "Contigo a conversa nunca acaba", disse-lhe. "Olha que tu", respondeu ele. 


E então falámos horas a fio, conhecemos templos, trabalhamos muito, stressamo-nos, gargalhamos no meio das ruas caóticas de Yangon e comemos rothi. Ele de Longyi e eu de thanaka. 
E para acabar, nada melhor que uma familia: a Lea, o Tim, a Kiki e o Raf. Tão modernos, tão acolhedores, extrovertidos, tão generosos. Tão perfeitos.
Sem ele, sem todos eles, estes dois meses não teriam tido graça nenhuma. 




Os 29 que acabaram em herpes


Disse que queria um dia relaxado. Com amigos, sem autocarros. Com agua quente, sem stress. Num sitio com internet para receber chamadas e o amor que vem do outro lado do mundo.
Disse.
Mas ja aprendi que aqui a palavra não tem valor. O dizer não faz historia. 
Quando me apercebi já tinha rasgado aquele bilhete de autocarro, despedido os planos de um aniversario à beira lago e estava num taxi, as 3 da manha, rumo ao incerto.
Incerto para mim é entrevistar um monge birmano que ameaça musulmanos. Incerto é ver o nascer do sol num carro desconhecido. De pequeno almoço: churros chineses e chá com leite condensado. Incerto é pôr a velocidade a 50, o foco em manual e o papel branco à frente da cara do "bin laden". Incerto é apertar o REC com borboletas no estomago. 
Nessa altura ainda tinha 28.


"O que fizeste no dia do teu aniversario?", perguntam. Caminhar por estradas sem carros, visitar templos vazios, dizer uma e outra vez "esta cidade é absurda". Almocei fruta e jantei pão numa área de serviço. Passei 5 horas num autocarro. No fim da noite, contabilizei. No dia dos 29 recebi cinco chamadas. Não pude conectar o whatsapp nem o Facebook. Os "parabéns" ficaram sem ler nem responder. Não soprei velas nem recebi presentes.
Os 29 começaram na Birmania com tanto stress que acabaram em herpes. Os 29 foram imperfeitos, interessantes, diferentes, desafiantes, intensos e, porque não, históricos.
Quem sabe um principio de um novo ato. 

O centro


Durante 4 dias desapareci. Desapareci e encontrei-me dirão alguns. Desapareci para busar-me, direi um dia. Quem sabe.
Esperava quatro dias de silencio absoluto, de mantras, kharmas, noites mal dormidas num chão de bambú e um estômago a roncar de fome.
Não tive nada disso. Quase nada. E o que tive foi infinitamente melhor.


Conforto, disse o "teaching monk" de nome impronunciavel. Para encontrar o centro precisamos de conforto. Um conforto mínimo. Suficiente. "Less is more", dizia a toda a hora. E nós absorvíamos. 
Durante quatro dias procuramos o centro e vivemos em mínimos. Fecha os olhos. Cruza as pernas. Conecta as mãos. "Bright and clear", repetiamos vezes sem conta. 


"Meditaste de verdade?", perguntam-me. E eu digo que sim. Algumas vezes, sim. É como um estado de hipnose, costumo explicar. 
Foram dias de paz e natureza onde o pensamento estava proibido. "Pensar não é sempre uma virtude", disseram-nos. Eu lutei contra essa verdade, mas acabei aceitando, evitando o raciocinio e concentrando-me no "nada". O meu nada está no meio da barriga e tem forma de bola de cristal. Quem diria.


O pais da primeira vez

O Cambodia é um pais de contrastes, contradiçoes e, talvez por isso, para mim, o pais da primeira vez.


Não me esquecerei que foi aqui onde chorei num museu. Os Killing Fields. Onde fui a uma praia paradisiaca para nadar no mar durante a noite. Ali, sem electricidade nem lua, o nosso corpo se iluminou debaixo da agua graças ao planctum. Gritei de felicidade e assombro. 


Tive a minha primeira intoxicação alimentar (não me podia livrar de uma) e comi o meu pior jantar (tenho a sensação que as duas coisas estão relacionadas). 
Fiz a minha primeira entrevista em video 100% sozinha e tive problemas. Vários. Superei-os todos. 
Realizei um sonho entrando em uma das 7 maravilhas do mundo, suspirei com o amanhecer em Angkor Wat, dormi sorrindo com os pés nas aguas turquesa de Kho Rong, vi uma migração de 8 milhões de morcegos, comi noodles recém feitos e fiz bons amigos. 


MAS. Mas esta foi também a primeira vez que tive "mixed feelings". Na capital Khmer acabei  sozinha num hostel vazio. Tomei sumo de cana de açúcar e contribui para o PIB nacional com varias doses de fruit smoothies ao dia para compensar a minha má alimentação. Porque no Cambodia toda a comida tem alho. E o alho me faz vomitar. Não vomitei mas tive dor de barriga, passei fome, sede e calor. Revoltei-me com o lixo na rua, com a arrogância e com as más formas. Tentei compreende-los. Vivi na pele o que significa estar "no segundo pais do mundo com mais feriados" e escutei uma e outra vez que estavam fechados pela "festividade". O feriado (de 2 dias) durou, na pratica, 2 semanas.


Este foi o pais dos sentimentos encontrados. Detestava o constante cheiro de comida podre na rua e, um segundo depois, me surpreendia com a beleza do lugar. Discuti com um motorista e 5 minutos mais tarde estava a rir-me às gargalhadas com outro. Fui enganada (isso é inevitável) e também dei gorjetas pela honestidade inesperada. Fiz o pior tour desta viagem e um dos melhores também. Detestei e adorei. Frustrei-me e surpreendi-me. Tentei sair do branco e negro, procurar os tons cinzas, fugi dos turistas e encontrei-me.
"Gostaste do Cambodia?", perguntam-me. Eu digo que sim, claro que sim. Quem disse que as coisas fáceis eram as melhores?

Calçada de alto risco

"Madam, madam, Tuk tuk!" É o primeiro que se escuta ao sair à rua. Tanto faz se são as 6 da manhã, as 3 da tarde ou 1 da madrugada.
Eh, lady, Taxi? Motorbike?



Respondo que não (com um sorriso) explico-lhes que gosto de caminhar. Mas eles não percebem.
"Very far, very far", dizem. Mas "how far" pergunto eu. "Ufffff.... 20min", explicam.
Nem em Laos, nem no Cambodia, nem na Tailandia, nem no Vietnam. Por aqui caminhar é um exercício de alto risco.

A moto é o veiculo familiar. Serve para levar os filhos ao colegio, transportar mercadoria, para ir a trabalhar e também para passear. Nela cabem 2, 3, 4 e até 5 pessoas. O bebé, a esposa e o animal de estimação. A comida, a vassoura ou a estatua de um buda gigante. Tudo encaixa nestas motos de pouca potencia que se multiplicam à velocidade da luz e que pouco tempo substituíram os pés.
As motorbike, essas que tanto poluem, que arrastam os remolques transformados en tuctucs, que apitam para avisar da sua presença... Essas motos são também as que ocupam a calçada enquanto senhores de giz na mão e talonario no bolso montam estacionamentos improvisados.




Em frente às casas vivem dezenas delas, mas não só. O passeio serve como deposito de coisas velhas, para acumular lixo ou até para montar um negocio.  Restaurantes portáteis de comida precozinhada invadem o cemento do sudeste asiático. Vendem fritos, sumos, noodles, fruta ou baguetes. Vão acompanhados de mesinhas e bancos de plástico. Invariavelmente vermelhos e azuis. É a street food, tão falada e popular. Foi também ela que roubou a calçada a estes individuos. Misturam-se com os mercados improvisados de roupa, sapato, material de construção, higiene ou brinquedos. Com mesas de jogo e os pequenos espaços de diversão. Porque aqui a calçada é um sitio para estar. Descansar agachado nessa postura tão pouco confortável para os ocidentais. Beber uma Beerlao. Fumar. Ver a vida passar. 





A calçada, como podem perceber, está ocupada. E então qual é o sitio dos pedestres?, perguntam os ingénuos. A questão é mesmo essa: por aqui não há pedestres.
"Nooo, noooo, too far", dizem-me cada vez que quero caminhar mais de um kilómetro. "Better motorbike", explicam-me acrescentando que só me custará um dolar. E eu, uma e outra vez, recuso-me e acumulo horas esquivando o lixo, pisando no barro, tropeçando nas pedras, ocupando a rua como um veiculo mais e parando, sempre que quero, para admirar esta vida "estrangeira". Porque por muito que aqui passear seja só para lunáticos ainda não consegui descobrir uma maneira melhor de viajar. Mesmo que a calçada esteja ocupada.

Desconfia

Tu, mochileira, que estas há um mês a viajar sozinha. Lonely travelers, chamam-vos. Um dia alguém, quem sabe invadido por uma bondade genuina, pergunta: “Queres que segure a tua mochila?”, e quando percebes já disseste que não. Claro que não. Tu e a tua mochila são só um. Ela é, na verdade, a tua única conexão com a realidade. Sem ela andarias sem rumo. Sem dinheiro, passaporte, internet, água e comida. A mochila é a tua casa, a tua essência, talvez. O remédio para as horas mortas, o entretenimento para os autocarros intermináveis. A última coisa que pensas antes de dormir e a primeira que tocas ao acordar. Os mais pícaros até lembrariam daquelas noites de sono leve e preocupado onde a mochila foi como um filho protegido pelo abraço apertado. 
Não, disseste. Porque não confias. Nem naquele desconhecido com cara de bonachão, nem nos amigos de há mais de dois ou três dias (toda uma eternidade para estes tempos). Não confias em ninguém, em suma. Só em ti. 
Viajar sozinha tem este ponto amargo, acido, ruim. Quando tu es a tua unica voz, o teu proprio doubleckeck, o teu diabo e o teu grilo falante. Quando tudo depende de ti e de mais ninguém, desconfias. Sempre.
Daquele senhor que pergunta de onde vens, que quer ajudar-te com o mapa. Da idosa que te oferece comida, que te põe uma pulseira no braço. Da rapariga que pousa para a tua foto (pedirá dinheiro?), do menino que brinca entre as tuas pernas (estão a tentar distrair-te?). Da senhora que te recomenda um restaurante (o que ganha com isso?), do mochileiro que diz que gostou do tour (essa gente gosta de tudo), do turista que diz que é barato (aposto que é rico e não tem criterio), do que fala bem de um hostel (talvez a sujidade não lhe incomode), do copo de agua que não sabes de onde vem, da comida que aparece sem ter passado pela cozinha. Do caramelo. Do desconto. Do kilo de fruta demasiado barato. Quando te apercebes passas o dia a desconfiar, a pôr cara seria, a tentar, tantas vezes sem sucesso, que não te roubem. Dinheiro, tempo, animo e felicidade.
Madam, hello, madam, dizem. E tu, automaticamente, dizes que não com a cabeça. Fazes bem, viajeira mochileira, é bom desconfiar, ouvir historias e aprender. Mas não te amargues. Aprende a dizer que não com um sorriso e quando te roubem o pagues mais do que o necesario, oh well,  como diria o meu Pai... "a vida é injusta".

Subscribe