o homem descansa

Chegamos com as malas leves e a barriga vazia. A cerveja chama-se Efes e a comida Kebab. Enfrentemos a realidade. Brindamos a nos e aos outros. E Tesekkurler/ Obrigado/
Dancamos no telhado e *dizem* fomos os reis da festa. Dois reis e uma rainha.
Foi tambem no telhado onde dormimos. Debaixo das estrelas (e de uma rede de mosquitos). E ali (no chao do telhado) acorda-se cedo. Os 40 graus nao perdoam. Mas tambem nao perdoam as obrigacoes de uma mulher de saia comprida e cabeca tapada *eu*.
As 7 da manha e preciso fazer o pao. Amassa a massa. Estende a massa. Cozinha a massa. Paozinho quente para todos. Homens, toca a acordar.
E comemos tomate, pepinos e beringela. Sempre tomate, pepino e beringela. Isso e uns iogurtes amargos que eu nao tenho coragem de tragar. Uma sesta e a mulher volta ao ataque. Ordenhar a ovelha.
Tambem posso, diz ele
Claro que nao, respondem ofendidos, isso e trabalho de mulher
E o homem o que faz, pergunta o turista sedento de novas experiencias.
O homem descansa.


sonra görüşürüz

A vida em 20 minutos

Hoje, enquanto passava as fotos de um computador a outro, vivi a minha vida em frames de 1 segundo. Não tive sequer tempo para respirar. Quando acabava um suspiro já tinha passado um mês, às vezes um ano. E então dava uma gargalhada, mas durante o sorriso algo me fazia querer chorar. Quando acabou tive um sentimento estranho. Estava cansada da intensidade daquele momento. Desconcertada por voltar a ver um eu que já não reconheço. Abalada por ter vivido tanto em tão pouco. Cinco anos em 11.200 fotos. E que GRANDES anos.

Hola.

Essa cabeça

Vou levar aqueles calções e aquela saia. Esta fica melhor com aquela camisola. Preciso comprar uns tenis, uma t-shirt e um protector solar. Levo ou não levo secador?. Sandálias, chinelos e casaco. !Que mochila tão grande!. Só espero que o cartão de crédito funcione. Passaporte. Ah, e um presente para a Çaglar. Saudades dos amigos. Praia, bikini e roupa confortável.
Quero lá saber de política: bem-vindos à minha cabeça.

As escolhas

Ultimamente tenho pensado muito nisso. Nas escolhas.
Porque de repente vais lá e recebes um shot corrosivo de realidade. Daquela que poderia ter sido a tua realidade. Vais lá, olhas à tua volta, e reconheces aquilo. Uma sensação de passado, um gostinho do que podias ter sido. E abdicaste.
Aquelas pessoas, aquele andar, aquela forma de estar na vida. Penso que eu poderia ter sido assim. Poderia sentir-me integrada naquele mundo. Poderia acreditar naquela felicidade.
Mas não sou.
Tenho uma tendência para olhar para o passado com alguma arrogância, superioridade. O presente é melhor e do futuro nem falar. Mas daquela vez não senti isso. Senti apenas nostalgia.
Nostalgia de uma vida que já não me pertence. Se calhar nunca me pertenceu.
Nostalgia de um presente que poderia ter sido.
Dessa vez não me senti melhor, nem pior. Só parei e pus-me a pensar nisso. Nas escolhas.

Nomes telefónicos

Passou-me duas vezes esta semana.
- Pera ai que eu ligo ao teu namorado e já resolvo isso.
A minha amiga estava ocupada, então pego no seu telemóvel e procuro o nome do dito cujo. E não é que vou à agenda e o nome não esta? Opção B. Vou ás ultimas chamadas e, como era de prever:
- É este que põe Cariño?
Sim, diz ela com naturalidade.
...
Depois foi um telefone que tocava na redação.
- Não-sei-quantas ta a tocar o teu telefone!
- Vê ai quem é.
- É...... hmmm.... o "pequenino".
- Ah, deixa que eu ligo-lhe mais tarde.
E continuou o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.
Estas são as mesmas pessoas que depois acabam com os namorados, zangam-se e substituem esses nomes apaixonados por: "Não atender".
(conclusão baseada em factos reais)

O limbo dos ets

Foi no meio de uma reflexão sobre a vida que eu disse.
Na vida há dois tipos de pessoas. As que sabem que querem casar, ter filhos, um cão e um jardim. E as que têm a certeza que não querem nada disso. Preferem a independência, as viagens e a liberdade total.
Ele respondeu.
Há esses dois grupos e depois há os do limbo. Os que não sabem o que querem até o presente acontecer.
Eu.
Mas esses são poucos. Toda a gente sabe sonha com um futuro. Nós somos uns ets.
Ele.
O limbo são todos. Os outros são ets.

Hasta luego Vía V

Foram 163 programas. A nossa primeira temporada completa. De lunes a jueves. Todos os de-lunes-a-jueves do ano. Passasse o que passasse. E passou tanta coisa. Houve eleiçoes, escandalos, corrupçao, roubos, assassinatos e reformas do governo. E nós estavamos ali para debater, discutir e analizar. Afinal somos "uma tertulia". Um programa serio. Mas nao tao serio. Uma hora e meia que tem a nossa cara.





E foi assim que ontém nos despedimos até setembro. E voltaremos com muitas novidades.
Já vos disse que adoro o meu trabalho?

As nacionalidades

Eu falo sempre disto e toda a gente diz que me entende. Eu falo sempre disto e acho que quase ninguém me entende. Ser imigrante não é fácil. Ser imigrante trabalhadora num país de 5 milhões de desempregados é pior.
Às vezes dizem-no e outras deixam-no no ar. Às vezes dirigem-se a ti e outras esquecem-se que estão a falar de ti. "O país já está como está e ainda vêm os imigrantes a tirar-nos o trabalho". Esta ouvi num taxi. "Por que é que TU tens trabalho e EU não?". Esta foi enviada por email. "Posso saber o que a senhora faz em Espanha?". Esta disse-me o polícia que logo depois resolveu registar o meu carro (porta-luvas incluído).
São parte do meu dia a dia e eu engulo-as. Vou engolindo. E sempre que chego a algum lado, a pergunta quebra-gelo. "E tu de onde és?". E é nessa altura que me apetece gritar-lhe e dizer: "Sou tanto daqui como tu". Trabalho, pago os impostos, consumo, critico, voto, manifesto-me, ajudo, viajo e divulgo. Sou igual, pior e melhor que todos os outros residentes nesta cidade, neste país e neste continente. E se não tens trabalho, pega nas tuas coisas, e vai ocupar o meu posto em Portugal, no Brasil, em Itália ou de onde quer que eu seja. Porque não sou de nenhum lado. Ninguém é de nenhum lado.
Já estou farta das nacionalidades.

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