A minha profissão é assim. Vivo esta semana a pensar na seguinte e a seguinte a pensar na outra. Tenho uma agenda de papel reutilizado que vou riscando, perdendo e recortando. Então anoto e volto a anotar. Planifico, pesquiso e decido. Até que vem a realidade e muda tudo. E então toca a reoganizar, reconvocar e recolocar. Tudo para a semana que vem. É terça e já estamos a pensar no sábado. E sábado será dia de pensar na próxima quinta. E assim, com a agenda em avançado parece que o tempo corre mais depressa. De repente, já passaram seis meses, sete meses. Mas como aqui o tempo é progressista, já estou a pensar em daqui a um ano. Assim, não há como não achar que a vida passa demasiado depressa.
Lembro-me de quando o Zapatero ainda não era çapatero (com a linguinha no meio dos dentes), quando não sabia o nome do Pepe e ainda tinha de pensar se Fernández levava acento.
Foi há tanto tempo.
Agora já fazem parte da minha vida. Do meu quotidiano. Sei o seu passado, as suas amantes e as fofocas mais sórdidas. Comento a roupa, o tom e as olheiras. “Acho que ele está depressivo”, e discutimos isso horas a fio. Insulto-os a todos. Menos a Salgado.
Havia a De la Vega que batia todos os records das redacções. Uma mulher não se pode fazer chamar por Maria Teresa Ferndández de la Vega e o seu cargo ser Vicepresidenta primera del gobierno. Demasiados caracteres! O que fazemos com os printers? E depois havia a Aido e a Corredor, tão sonsas, tão sem sal. A Leire Pajin, a sua adolescência polÃtica e o queixo duplo. Como se pode ser tão feio? A Espinosa, o Corbacho e o Moratinos.
Ate um dia, sem aviso prévio, acordo e descubro que tenho que lhes dizer adeus. Que tenho que abrir o meu quotidiano a um senhor que se chama Jáuregui e nem sei pronunciar bem o seu nome. Acho que é amigo do Valeriano, !que dupla!. E então passo o dia com tremeliques, a ler, estudar e aprender tudo sobre estas caras novas. A discutir o futuro do paÃs e as consequências deste “cambio”. Porque esta seana acordei e tinha mudado o governo. Senti que estava a viver a história. Mas eu sou uma exagerada.
Foi há tanto tempo.
Agora já fazem parte da minha vida. Do meu quotidiano. Sei o seu passado, as suas amantes e as fofocas mais sórdidas. Comento a roupa, o tom e as olheiras. “Acho que ele está depressivo”, e discutimos isso horas a fio. Insulto-os a todos. Menos a Salgado.
Havia a De la Vega que batia todos os records das redacções. Uma mulher não se pode fazer chamar por Maria Teresa Ferndández de la Vega e o seu cargo ser Vicepresidenta primera del gobierno. Demasiados caracteres! O que fazemos com os printers? E depois havia a Aido e a Corredor, tão sonsas, tão sem sal. A Leire Pajin, a sua adolescência polÃtica e o queixo duplo. Como se pode ser tão feio? A Espinosa, o Corbacho e o Moratinos.
Ate um dia, sem aviso prévio, acordo e descubro que tenho que lhes dizer adeus. Que tenho que abrir o meu quotidiano a um senhor que se chama Jáuregui e nem sei pronunciar bem o seu nome. Acho que é amigo do Valeriano, !que dupla!. E então passo o dia com tremeliques, a ler, estudar e aprender tudo sobre estas caras novas. A discutir o futuro do paÃs e as consequências deste “cambio”. Porque esta seana acordei e tinha mudado o governo. Senti que estava a viver a história. Mas eu sou uma exagerada.
Podia contar-vos das 50 horas de trabalho intenso. Das pressões, dos tremeliques, do cérebro cansado de pensar. Podia contar-vos dos fins de semana de festas, do cinema e das cervejas nocturnas. Podia falar-vos dos novos amigos e fofocas dos velhos. Dos meus pais que se foram. Da viagem que tinham planeada para o meu aniversario. De como um Papa pode estragar os planos de uma menina prestes a cumprir 24. Podia contar-vos que estou prestes a fazer 24 anos. Podia falar do amor e do não-amor. Das negações nas que gostamos de viver. Podia falar-vos de tantas coisas que têm acontecido nestes últimos dias. Mas ultimamente tenho gostado mais de ouvir. Paciência.
Achei que fosse ser mais difÃcil, que a realidade fosse doer um pouco mais. Mas cheguei e comigo veio aquela agradável rotina de dias de correria e noites de trabalho intenso. Cheguei e receberam-me com um abraço e com a determinação de fazer daquele fim-de-semana um momento feliz. E das lágrimas vieram gargalhadas e noites de histórias e fofocas alheias. !Quantas coisas acontecem em três semanas! Cheguei e senti-me em casa. Depois veio a alegria de voltar à s notÃcias, à s análises informativas, à s reuniões e mais reuniões. E quase sem notar, chegava outro fim-de-semana. Noitadas com direito a pequeno-almoço e confidencias debaixo da manta do sofá. E agora penso que a despedida foi já há muitos dias. Que já desfiz as caixas, arrumei a mudança, enviei as fotos e conversei sobre o tema. Já passou a pior parte e ainda não tive tempo de ficar triste.
De volta ao trabalho, à quela vida de segunda a sexta. Às overdoses de gomas, à s fofocas molhadas em café. De volta à minha casa partilhada, à vida sem satisfações. Aos dormir-tarde-e-tarde-acordar. Às idas matinais ao ginásio e noites de series americanas. De volta à quela cidade que há dois anos me acolheu e que agora chamo de minha. De volta à televisão em directo, aos telefonemas, emails e cervejas pos-laborais. De volta aos almoços de domingo, à s peregrinações de bar em bar, à s manhãs de contabilizar danos. É que acabaram as ferias e voltei à minha vida. Mas continuo a dizer que não percebo o que é isso da “sÃndrome postvacacional”. Eu gosto de ir, a serio, amo ir, mas voltar também tem o seu encanto.
Estava eu recem aterrizada no pais da Maple Tree, ainda habituando-me a trocar o chip do espanhol para o ingles, quando chega a minha vez na fila da imigracao. A senhora era uma loiraca, olhos azuis e dentes brancos. Pergunta-me, seca como so ela:
- O que a traz ao Canada?
Eu esboco um sorriso amigavel e respondo-lhe que vim de ferias.
- Sozinha?
Sorrio e aceno com a cabeca, mostrando-lhe o meu ar previamente ensaiado de "mulher-confiante-e-independete-que-nao-precisa-de-mais-ninguem-para-se-divertir". O look evidentemente nao conveceu e ela levantou uma sobrancelha:
- O que faz uma rapariga sozinha de ferias no Canda?
Claramente ofendida, respondo com um ar pouco convincente:
- Turismo?
Ao que esta rebota imediatamente, qual episodio de West Wing:
- E reservas de hoteis, onde estao?
- Oh I'm a backpacker.... - justifico com ar de pobre coitada.
Ela, desconcertada, resolve apelar para o lado emocional:
- Mas ouca la, porque e que voce esta sozinha? Nao tem amigos... namorado...?
Autch, golpe baixo. Quando ate a senhora-mal-amada da imigracao insinua que estamos ecalhadas e que a coisa esta mesmo a ficar preta.
Proximo passo: comprar sininhos para a coleira do gato.
Aguardem-me.
- O que a traz ao Canada?
Eu esboco um sorriso amigavel e respondo-lhe que vim de ferias.
- Sozinha?
Sorrio e aceno com a cabeca, mostrando-lhe o meu ar previamente ensaiado de "mulher-confiante-e-independete-que-nao-precisa-de-mais-ninguem-para-se-divertir". O look evidentemente nao conveceu e ela levantou uma sobrancelha:
- O que faz uma rapariga sozinha de ferias no Canda?
Claramente ofendida, respondo com um ar pouco convincente:
- Turismo?
Ao que esta rebota imediatamente, qual episodio de West Wing:
- E reservas de hoteis, onde estao?
- Oh I'm a backpacker.... - justifico com ar de pobre coitada.
Ela, desconcertada, resolve apelar para o lado emocional:
- Mas ouca la, porque e que voce esta sozinha? Nao tem amigos... namorado...?
Autch, golpe baixo. Quando ate a senhora-mal-amada da imigracao insinua que estamos ecalhadas e que a coisa esta mesmo a ficar preta.
Proximo passo: comprar sininhos para a coleira do gato.
Aguardem-me.
Quando aquilo aconteceu senti que todos os sinais vitais do meu corpo se congelavam. Fui causa e presenca da perda da unica prova material daquilo que as nossas palavras ja cansaram de contar. Morria, naquele momento, uma parte da minha historia.
- Como e pessima a tua maquina fotografica!
- Eu sei, mas eu amo-a. Comprei-a no interrail...
Entao ai comecava a lenga-lenga de uma batalha passada. As descripcoes daquela tarde de cerveja, dos piratas, dos brindes, dos amigos chilenos e da desaparicao. Da busca tosca e falida, do comboio, da senhora que me limpou as lagrimas. Da depressao pos-perda e da decisao:
- Ola, bom dia, queria comprar uma maquina fotografica.
- Certo, e qual seria?
- A mais barata.
Esse era o dia 2 daquela que viria a ser a viagem da minha vida. Uma maquina fotografica roubada nao estragaria este momento. Foi assim que 600 toscos fotogramas de qualidade media-baixa registaram esta aventura. A partir desse mochilao, o nosso grupo passou de quatro a dois. Mas nos resistemos. Eu e ela. Sobrivivemos entre flashes, fotos queimadas, cliques e destinos surpresa. Ate ao dia. O dia em que uma queda fatidica deu fim a visao da minha companheira de viagem. Ela agora ve tudo assim, escuro, embaciado, difuso, espelho daquilo que o nosso grupo indestrutivel passou agora a ser.
Dois anos depois, a minha maquina viajante morreu numa manha de sabado solarenga durante um mochilao pelo Canada.
Uma morte digna. Que deixara saudade.
- Como e pessima a tua maquina fotografica!
- Eu sei, mas eu amo-a. Comprei-a no interrail...
Entao ai comecava a lenga-lenga de uma batalha passada. As descripcoes daquela tarde de cerveja, dos piratas, dos brindes, dos amigos chilenos e da desaparicao. Da busca tosca e falida, do comboio, da senhora que me limpou as lagrimas. Da depressao pos-perda e da decisao:
- Ola, bom dia, queria comprar uma maquina fotografica.
- Certo, e qual seria?
- A mais barata.
Esse era o dia 2 daquela que viria a ser a viagem da minha vida. Uma maquina fotografica roubada nao estragaria este momento. Foi assim que 600 toscos fotogramas de qualidade media-baixa registaram esta aventura. A partir desse mochilao, o nosso grupo passou de quatro a dois. Mas nos resistemos. Eu e ela. Sobrivivemos entre flashes, fotos queimadas, cliques e destinos surpresa. Ate ao dia. O dia em que uma queda fatidica deu fim a visao da minha companheira de viagem. Ela agora ve tudo assim, escuro, embaciado, difuso, espelho daquilo que o nosso grupo indestrutivel passou agora a ser.
Dois anos depois, a minha maquina viajante morreu numa manha de sabado solarenga durante um mochilao pelo Canada.
Uma morte digna. Que deixara saudade.
Ontem subimos a montanha para fazer uma "escalada assassina". O meu irmao queria fazer um percurso que na sua descripcao dizia 'you may die'. Eu queria fazer aquele que fazem os avozinhos. Fizemos um meio termo e reclamamos os dois. Eu, porque me doia o joelho. Ele, porque nao havia nem ursos nem alces.
No caminho de volta vimos um urso. Grande, preto, assustador. Rosnou-nos com todos os seus dentes e o Le defendeu-me e salvou-me a vida aplicando-lhe um golpe de Muay thai. Ra!! Ou pelo menos essa sera a versao que contaremos ate ao fim da nossa existencia. O dia em que lutamos contra um urso de verdade e que o Muay thai salvou a nossa vida.
Comeca assim mais uma lenda da familia Big Fish.
No caminho de volta vimos um urso. Grande, preto, assustador. Rosnou-nos com todos os seus dentes e o Le defendeu-me e salvou-me a vida aplicando-lhe um golpe de Muay thai. Ra!! Ou pelo menos essa sera a versao que contaremos ate ao fim da nossa existencia. O dia em que lutamos contra um urso de verdade e que o Muay thai salvou a nossa vida.
Comeca assim mais uma lenda da familia Big Fish.
- Nao ha acentos.
- A Coca Cola e mais barata que a agua.
- Chove. Chove muito.
- Os bares fecham as 2 da manha.
- A comida tipica vende-se nas lojas de fast-food.
- Ha velhos tatuados de cabelo comprido, miudos de cabelo verde a andar de skate. Punks, goticos e tios a andar pela mesma rua.
- Em Vancouver quase metade da populacao e asiatica.
- Sinto-me nos Estados Unidos.
- Disseram-me pela primeira vez "abut" (about)
- Os bares servem cerveja caseira. (forte)
- Ha totens por todas as partes. E o meu irmao tira fotos com todos.
- Quase fui atacada por um cisne.
- Pedi uma Coca Cola numa Casa de cha. Olharam-me com cara de: sai daqui sua capitalista urbana.
- Ainda nao vi alses, nem ursos, nem neve.
- Continuo viva.
- Por enquanto.
- A Coca Cola e mais barata que a agua.
- Chove. Chove muito.
- Os bares fecham as 2 da manha.
- A comida tipica vende-se nas lojas de fast-food.
- Ha velhos tatuados de cabelo comprido, miudos de cabelo verde a andar de skate. Punks, goticos e tios a andar pela mesma rua.
- Em Vancouver quase metade da populacao e asiatica.
- Sinto-me nos Estados Unidos.
- Disseram-me pela primeira vez "abut" (about)
- Os bares servem cerveja caseira. (forte)
- Ha totens por todas as partes. E o meu irmao tira fotos com todos.
- Quase fui atacada por um cisne.
- Pedi uma Coca Cola numa Casa de cha. Olharam-me com cara de: sai daqui sua capitalista urbana.
- Ainda nao vi alses, nem ursos, nem neve.
- Continuo viva.
- Por enquanto.