Rendida ao "jo"

Na minha última aula de espanhol em Portugal o professor saiu-se com esta:
- Ah, quase me esquecia do essencial. se queres falar bem espanhol tens de aprender a palavra mais utilizada por lá: joder. O resto vem-te com a prática.
Eu ri-me. E ri-me ainda mais quando percebi que “roder” se escrevia com “j” e não com “r” como sempre o imaginara.
Claro que esqueci esta última lição no sótão do meu subconsciente. Afinal eu iria fazer um mestrado e não aprender a falar “calão”. Não estava a pensar pôr-me a dizer asneiras à frente do professor.
Ai não?
Nós temos o “bolas”, o “chiça”, o “raios”, o “caramba”. Todos substitutos bem educados de um completo e muito bem dito “merda”. Mas os espanhóis, como já se tem vindo a comprovar, são uns linguistas muito simples. Ao invés de recorrerem a mil e uma formas de dizerem “merda bem educada” transformaram o “joder” em algo que podemos caracterizar como uma “asneira socialmente aceite”.
Surgem assim o “Joder” e os seus amigos “Jo”, “Jolin”, “Jodar”, “Jodi” no discurso dos grandes executivos e no mais formal ambiente de trabalho.
E eu, que nunca fui dada a asneiras, acabei por aceitar esta nova forma de estar.
Hoje disse pela primeira vez: “!Joder, que fuerte!”, claro que soou muito estranho, mas senti que foi, sem dúvida, um grande passo para este novo estatuto que apelidei de: “o estado de rendição ao jo”.

! Hasta Luego !

As despedidas ultimamente têm criado um nó mental na minha cabeça de falante de português (metáforas à parte, sejamos agora objectivos):
Adeus, dizes quando te vais embora. Até logo, quando vais ver em breve alguém. Até já, é quando se vão encontrar num curto espaço de tempo. Até amanhã, vais vê-lo no dia seguinte. Até para a semana. Até. Tchau. Se pensarmos bem, chegamos mesmo a juntar duas expressões, formando coisas do tipo “Adeus, até amanhã”.
Agora imaginem um falante de português que chega a Espanha e se depara com a seguinte situação:
Se estas a sair de uma loja, a descer de um autocarro, se combinaste encontrar um amigo daqui a cinco minutos ou te despedes de um professor que vais ver amanhã. O cumprimento é sempre o mesmo “hasta luego”.
Mas como dizer “hasta luego” a uma pessoa que não voltarás a ver “luego”, nem nunca mais? Como não dizer “hasta mañana” ao teu chefe que vais ver amanha e não “mais logo”?
A verdade é que já experimentei sair-me com o “hasta manãna” ou o “adios” e a reacção normal e uma cara de confusão, de alguém a quem trocamos as voltas, que embaraçado acaba por dizer “tchau” ou somente “venga” com um sorriso de “que-engraçada-esta-estrangeira”.
“Superado” o obstáculo linguístico (as aspas significam que foi tudo assimilado mas que o nó mental ainda não se desfez), surge o segundo problema com a maldita expressão. Mas eles afinal pronunciam “hasta luego” ou “hasta logo”? A dúvida perseguiu-me por uns dias e tinha acabado por concluir que era uma questão de sotaque. Os galegos diziam de uma maneira, os de fora de outra, mas as excepções começavam a inquietar-me. Resolvi, então, perguntar às minhas amigas (que têm uma paciência incrível para as minhas dúvidas existenciais).
- Porque é que tu dizes “hasta luego” e ela diz “hasta logo”? É porque tu és daqui e ela é de Valência?
- Como assim?
- É que vocês pronunciam “hasta luego” diferente
- Não… é igual.
- Não é nada. Ela diz “hasta logo”.
- A mim soa igual.
- A mim também – acrescenta a outra olhando-me com um ar assustado.
É nestas alturas que amaldiçoo o português por ter “tantos fonemas”. Afinal o nosso ouvido “apurado” ouve além do limite admissível do espanhol.
Só para que conste, eu decidi que vou pronunciar “luego” para que me soe mais “español”, nem que seja para impressionar os meus amigos portugueses. E decidi também que quando for grande vou por os espanhóis a aprenderem a despedir-se como deve ser.
Bem, tudo isto com devida (e bem grande!) margem de erro. !Hasta Luego!

Morriña

Há um sentimento comum aos chamados “cidadãos do mundo”. É o amigo que ficou longe, o companheiro que anda a vaguear por outros continentes, o namorado que se perdeu por outro país.
Em Portugal chamamos-lhe Saudade.
Desde pequenos que nos ensinam na escola que Saudade é uma palavra que só existe na nossa língua, e isso, claro, dá-lhe um certo encanto.
A primeira vez que vi este mito ser derrubado, foi numa aula de alemão. O professor ensinava-nos vocabulário e, no meio de outras palavras, diz “Sehnsucht”. Tradução: Saudade.
Mas como? Não! Não é possível. Saudade é uma palavra que só existe em português, contestamos.
- Isso é um mito parvo.
Passei semanas, meses, contando “a minha nova descoberta” a toda a gente e corrigindo, de sorriso matreiro, sempre que alguém se saía com a tal frase-lugar-comum.
Mas à medida que os anos foram passando, e os meus conhecimentos de alemão deteriorando-se a olhos vistos, fingi esquecer-me desse pormenor. O mito tinha o seu encanto, e, como nos ensina o Big Fish, há coisas que valem a pena manter.
Mas outro dia, o inevitável aconteceu. Estava a conversar com uma amiga quando ela me diz que “echa un montón de menos” o seu “novio”. Não é que o seu namorado está a viver na Guatemala?
E ela prossegue, enfatizando: “claro que tengo morriña”. E eu, como é norma nas conversas fora do vocabulário-escola-de-espanol, coloco a minha cara de dúvida e digo: “Morriña?”
Ela, que estuda português há vários anos, esclarece “Saudade”.
É então que respondo, numa tentativa derradeira de preservar o Big Fish da grande história: “sempre me ensinaram que saudade é uma palavra só portuguesa” e ela diz com o seu ar de menina despachada: “que tonteria, en aleman es Sehnsucht”. (moral da história, não tentar enganar conhecedores de idiomas).
O mito foi oficialmente deitado por terra, mas no fim acabei por concluir: nem todas as histórias são dignas do Big Fish, há algumas que têm mais encanto quando contadas como na realidade. Afinal, é muito bom poder dizer em outras línguas, este sentimento que desde sempre foi tão meu. Agora posso por uma cara feliz e explicar a este povo galego que, não importa onde esteja, hei sempre de ter “morriña” de alguém. Afinal morriña também pode ser uma coisa boa!

Falsos Amigos II

Estávamos em ritmos “de copas”, de bar em bar, quais saltimbancos femininos. A história surge num entrelaçar de vozes roucas. Era um amigo que tinha sobrevivido heroicamente a uma doença fatal.
- Uau, que historia espantosa - comento
Silencio. Olhos pensativos.
Marina acha por bem reforçar a afirmação para quebrar o repentino sossego:
- Realmente espantoso…
Poderia ter sido admirável, extraordinário, maravilhoso, incrível, mas não, entre copos de licor de café, a história parecia-me verdadeiramente espantosa.
Até que há alguém que se adianta.
- Pois eu não acho espantoso. Parece-me um rapaz muito forte e até heróico.
Todas soltam gritos de concordância e a conversa segue para se evitar o assunto.
Horas mais tarde, muitos licores de café depois e sem mais nenhum silencio registado, resolvo perguntar, já temendo a resposta.
- O que significa “espantoso”?
- Horrível – disse.
Gargalhei sozinha alguns minutos. Gargalhei acompanhada outros tantos. E o falso amigo valeu-me mais um licor de café.
“Ás histórias espantosas e exquisitas” foi o brinde proposto. Pareceu-me bem.

A Massa

Desde há dois anos para cá, cozinha para mim tem cara de massa (não que antes tivesse cara de alguma coisa). Bolognesa, putanesca e carbonara. Com pimentos, beringela, bacon ou nozes (mistura estrondosa!). Há aquela que vai no forno e deixa o queijo gratinar, a que tem recheio e a que se serve fria como salada. Podemos usa-la como acompanhamento ou prato principal (com direito a três repetições).
Mas para mim, cozinha também tem cara de seis frustrantes quilinhos a mais e um guarda-roupa novo (dois tamanhos acima) comprado com o dinheiro que deveria ser para viagens. Então desta vez tomei uma decisão: não haverá massa no armário da minha cozinha espanhola. Aparecem assim as saladas, os bifes grelhados e as tostinhas integrais. Mas ontem lembrei-me que tortilla não era massa e, portanto, “se estas em Espanha junta-te a eles”.
E foi então que….
- Se ontem comi tortilla qual é o mal de hoje comer massa?
Tentação, carne fraca! A verdade é que a sensação de voltar a território conhecido foi inspiradora! (prometo manter o pacote de massa, comprei dos pequeninos, juro!, no fundo do armário da cozinha. Só para ser usado em dias mais especiais!)
Mas já agora fica aqui a minha indignação:
Porque é que as comidas, “não-massa” são tão caras? Bem… talvez por uma questão monetária (e só mesmo monetária) devesse recorrer à massa um dia ou outro…

Acho que me consigo habituar a isto

Ontem um espanhol explicou-me o fenómeno da “siesta”.
- Mas vocês dormem mesmo essas duas horas?
- Não… mas descansas. Imagina: tens duas horas de pausa para almoço. Vais para casa, cozinhas, comes, lavas os pratos e ainda vês um pouquinho para ver televisão. E depois voltas para o trabalho muito mais relaxada..
- Mmmm
- Mas depois há aquelas cidades horrendas como Madrid e Barcelona em que eles só têm tipo 15 minutos para almoçar. Horrível! Não admira que sejam todos infelizes.
- Sabes que não é só em Madrid e Barcelona que isso acontece…
- O que? Em Portugal também não têm a “comida” (forma moderna de dizer siesta)?
- Não…
- A sério? Não sei como conseguiste viver lá tantos anos.
Eu também não! E viva as cidades pequenas! Realmente a vida com a “comida” é muito mais feliz e “relaxada”. Venga!

Os falsos amigos

A melhor parte de viver “no estrangeiro” é “absorver uma nova língua e uma nova cultura”. Toda a gente saber isso de cor. Mas isso posto em acção… bem, pode não ser tão divertido. Em todas as línguas existem os três grandes fantasmas: preposições, verbos irregulares e falsos amigos. Pois bem, em algumas horas lá apareceram todos os fantasmas existentes juntos para alegrar a minha primeira visita a Coruña. Isto de falar espanhol até é fácil, as coisas só começam a complicar quando queres dizer “oficina” porque isso é escritório. Mas atenção que “escritório” é escrivaninha e oficina, afinal, diz-se “taller”. Por aqui as coisas “exquisitas” são deliciosas, as “espantosas” são horríveis e os “mininos” são gatos. E, claro, não poderia deixar de aparecer a típica confusão luso-espanhola já que só os principiantes é que não sabem que para os nuestros hermanos “vaso” é copo, “florero” é vaso e “copo” são cereais. E os “billetes”? Esses são notas, sendo que as “notas” são bilhetes, obvio. Havia alguma dúvida? Afinal espanhol é só português com sotaque! Isto vai ao sítio num instante.

orgulhosos 31%

Hoje tive o telefonema mais interessante da minha vida jornalística.
Todos nós temos alguns assuntos que nos são mais queridos, uma temáticas às quais somos mais sensíveis. Eu tenho algumas. Poucos foram os meus amigos que nunca me viram discutir (acaloradamente) sobre a homossexualidade, o racismo ou a liberdade de expressão. Mas existem mais temáticas que põem logo a sirene a tocar.
Esses outros temas “mais esquecidos” desde há algum tempo me preocupam. Afinal porque é que “deixo passar” essas discussões e faço um sorrisinho cínico só para não me irritar?
Resposta simples: aparecerem vezes demais na rotina do dia-a-dia.
Mas hoje não houve como escapar.
Estou a fazer um trabalho sobre as politica de responsabilidade social das empresas. (Sim, é um trabalho manhoso e, sim, as empresas são todas muito responsáveis blablabla)
Estava eu a passar os olhos pelo relatório de responsabilidade social da Auchan e fui atraída por um número.
Vinha assim, em tópico, como se nada fosse.
«31% dos nossos cargos directivos são mulheres».
Pára tudo. Volta atrás.
Contexto: O número surgiu em resposta ao tópico: «Exemplos de acções desenvolvidas na área da responsabilidade social». E entre doações de alimentos a obras de caridade e construção de escolas para crianças necessitadas, lá estava outra acção de responsabilidade social que o Grupo Auchan tanto se orgulhava: dar cargos de topo a mulheres.
Os briefings lá tiveram de me ouvir berrar, espernear, revoltar-me ficar vermelha, sair da redacção e, por fim, ligar para o grupo Auchan:
- Acho que está um engano aqui nas vossas respostas.
- A serio?
- Não sei.. mas a mim não me parece que mulheres em cargos directivos seja uma acção de responsabilidade social.
- Ah não. Veja bem, não era isso que queríamos dizer...
A minha chefe não aprovou a ideia de colocar isso no texto. Felizmente estou de saída. Não quero mais jornalismo a brincar.

O Senhor Herman

Ontem cheguei a uma conclusão que me assustou. O Herman José transformou-se num Fernando Mendes.
Enquanto o via com a sua camisa de penduricalhos brilhantes e calças com detalhes em croché apercebi-me do que é que o Herman queria dizer com «quero que as pessoas me vejam de outra maneira».
De facto, o «senhor Herman», como diria a nossa querida Lucy, deixou-se das piadas ordinárias e de pessoas nuas a passear-se pelo estúdio. Isto seria louvável, claro, se ele não o tivesse trocado por um programa de piadas fáceis, cheias de caretas e conversa lugar-comum.
Pensando bem, o Fernando Mendes, por mais populista que seja (e por mais que a sua imagem já esteja gasta e ele não demonstre prazer algum em fazer o seu trabalho) tem o mérito de assumir o papel que desempenha. Já o Herman, continua a falar alemão e a cantar a Amália enquanto exibe o look cabelo oxigenado, calças justas, sapato pontudo e cinto com brilhantes.
Pensando bem, a última vez que me lembro do Herman ter dito alguma coisa que me interessou foi quando veio a público esclarecer: «Não, não, eu só violei miúdos de 16 anos, isso não é pedofilia».

12 ou 22?

- Fazes bem! Tas mesmo na idade de fazer essas coisas!

E, de repente, deixei de ouvir os elogios à minha coragem e distrai-me com um flashback de imagens de passado. Quando tinha doze anos lembro-me de olhar para os “mais velhos da escola” e querer que o tempo passasse a correr. Queria logo poder usar maquilhagem, saltos altos e malas de senhora. Fechava os olhos e tentava imaginar as minhas feições com aquela idade. Imaginava-me sempre bonita, crescida, até mesmo chique.
Quando penso nisso esboço sempre um sorriso. Sou tudo menos chique, crescida, bonita ou senhora. Não gosto de saltos altos e a maquilhagem faz-me comichão. Malas de senhora é para as “betinhas”. Eu sou “desportiva”, dizem os mais simpáticos.
Mas aos doze anos, essa possibilidade não existia. Queria ter filhos aos 23, para poder brincar com eles sem um grande gap geracional (ok, aos doze deveria dizer, “sem ser uma velha chata”). Agora quero ter filhos aos 30.
Mas dizem que os 50 são os novos 40. Seguindo essa lógica de raciocínio, os 40 são os novos 30 e os 30 os novos 20. Faz sentido. O meu desejo mantém-se datado.
Mas espera. Um momento.
Assim sendo, eu agora, ao invés de 22, tenho 12?
Pois. Fez-se luz.
Mas mantenho os meus desejos.
Quando “já não tiver idade para essas coisas” quero ser crescida, bonita, usar saltos altos e roupa de senhora. Mas para já nao. Só tenho doze anos!

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